• rumo

    1_semmedo

    compreender o sossego por entre as curvas. sim, é essa a tarefa suprema a realizar.

    como proceder? digo, conheço uma penca de procedimentos, talvez não aplicáveis a todas as instâncias. primeiro tem de compreender a fissura, olhar entre as bordas dos cadarços e cada modo de lidar com os ambientes. não se faz a novela como coisa pronta, tem de aprender a ver.

    pois que lide com o processo, seus não-lugares e trejeitos incômodos.

    talvez, o único jeito voraz de superar os acasos, aqueles que se convertem em desgostos, sem rapidez (como hão de admitir os jovens, vez ou outra).

    é preciso um plano. talvez?

    pontapé para o infinito, atadura. semmãos, semmedo, mmordedura. coragem, aquilo de que tanto falam os clássicos romanescos sem era, que se sobrepõem a uma realidade turva, demasiado complexa para nossos contos de fada caninos. anacronismos de infância, maus adestramentos. depois de um tempo, os embalsama todos e transforma em leituras de maniqueísmos diversos, notícias sem profusão nem densidade, as quais só se lê às partes. reitera discursos ou cria coisa alguma, mas segue algum rumo estrito que supostamente se concretiza. ou não, engole a rebelião e bate ponto no escritório, todos os dias, eis o método que seu pai lhe ensinou.

    o herói não compreende seus trejeitos, seu namorado no masculino como não poderia imaginar. e depois a família toda vê a foto, porque não a imaginava tão visível, todas as membranas da vida se sobrepondo, como cadáveres. é tudo tão transparente que dói, no semmesmo da estória. compõe de palavras e imagens uma contação sem fim de protestos, amores e títulos de algozes. todos estudantes e ansiosos por se formar.

  • as palavras não dão conta de surrupiar os novelos
    ficam assim: pasmas

    e de tantos espasmos, começam a se mover de mansinho
    por entre encostas, espaços abertos esquecidos pelo tempo
    das multidões não mais seremos, até que

    não haverá verbo para cessar os fogos
    se não aquele gesto mínimo, da face
    dos mais próximos

  • 2013&mídia&rua&

    montação é amor. aqui, outros nomes, uma apropriação. mídia montada de asinhas de fora, se faz de amiga, quer assaltar as máscaras de multidão. violência de estado corrompeu nossas ruas. contação de alertas, gente no chão: pensamento difuso, escreve-se para fagocitar os termos, desentranhar os caminhos por entre as nervuras do acontecimento.

    derivaceleste:

    saber emaranhar os acasos nas estranhas lágrimas provocadas pelos anteriores.

    o medo, a sede, a luta e o sossego se contaminam uns aos outros até não existirem mais.

    não há permutas, marmotas, percepções inertes ou qualquer outro sentido além daquele visível, ainda que tão turvo, paspalho:

    serão neves, tudo ao inverso. ou talvez não, coisadura. não serão fascistas a nos buscar nas casas, senhora no batente, senhor na multidão (infame ilógica inerte que perdura). enxame de refugiados na tijuca, naquela rua perto do estádio, encurralados no próprio quintal de casa. ninguém entende o assunto em voga, há tanta confusão.

    de voz em voz uns tentam pintar as cores todas de verde e amarelo, as janelas de inferno, as lutas de brincadeira e então desvalorizam o todo, a própria multidão. em processos, recessos e mistérios, porque são muitos e mil-ações.

    não tem jeito de cessar o grito porque vem de longe, de muitos, muitos anos, adormecido que estava nos pulmões de tantos, expelido enfim por aqueles que puderam se manter vivos de alguma forma. e não é caso de impeachment, sem surto. isso é tudo lorota turva, e muito simples, um caso de apropriação:

    (explicaremos primeiro a oposição)

    reacionário (adj.) é aquele que é contrário a quaisquer mudanças (sociais e/ou políticas); que se opõe à democracia; antidemocrático. sinônimos: antidemocrático, antiliberal, retrógrado e ultraconservador.

    (nada como um be-a-bá das curvas)

    tampouco nos iludamos com o liberal (s.m.), isto é, aquele que é partidário da liberdade em matéria política ou econômica. no plano econômico, é um perspicaz enganador, astuto defensor das desigualdades e do dinheiro no bolso dos indivíduos (sic) de bem.

    nenhum deles representa um perímetro maior que o próprio umbigo. talvez, e digo sem muita convicção, sejam capazes de estender algum apreço a familiares e uns poucos semelhantes, pelo puro louvor conferido à família e a propriedade, ambas instituições tão intimamente conectadas. compartilham regras, egoísmos e convenções.

    campo minado! acabaram nossos montes, direi. poderia ser – a crise já se estende por tanto tempo que mal é possível morar na cidade, e então lembramos de tantos problemas interestaduais e tão mais antigos: a polícia militar.

    (militar é um órgão capaz de eliminar todos os outros, e, por isso mesmo, deve ter sua existência sumariamente questionada)

    e então os bondes, as cores. os trios elétricos que se não estivessem cercados de tantos políciais (e nunca entenderemos tantos policiais) seriam carnavalescos, polivalentes quaisquer-uns com tanto orgulho de enfim existir. sua manifestação nada mais é que uma afirmação da própria existência. decidem ter voz. depois de tanto tempo que não se sabe ao certo de crença forçação velada em crer num sistema de números, morfemas, eixos temáticos e não se sabe ao certo e nunca em quem votar – requisito infame de uma política de delegações.

    hannah arendt diz que quando há autoridade, não há ação política: o poder de agir, nesse caso, é outorgado ao governante ou pequeno grupo que governa. pois então expliquemos, para fazer frente os confusos, gente que confunde totalitarismo com revolução (soa surpreendente, mas vive-se num mundo de disfarces, e nem é tão nova a ideia)

    desacredita no sistema em ritmo contagiante de alienação // os espaços abertos são ricos em propostas e experimentos // há aqueles (e são muitos) que procuram lideranças/desejam lideranças/querem depor o lugar // me pergunto se precisamos de lideranças em qualquer lugar // o plural é importante // não se trata de verde e amarelo // bandeiras vermelhas representam grandes articulações coletivas por direitos sociais, nunca se esqueça disso // mídia golpista, que termo sensacional // veja, minhas máscaras foram usadas por outrem // ela foi às ruas e não sabia porquê // os discursos mudaram e continuou seguindo a marcha // mudaram o rumo e alguém ficou?

    aqueles que pintam de branco são aqueles mesmos que desejarão eliminar todos os que não puderem se vestir da mesma cor.

    você quer ser eliminado? ou espera obter uma fatia do bolo?

    política de recortes, de cartas marcadas, de confusão. publicidade, política de imagens, vote no cara legal! os códigos binários e seus comandantes esperam somente respostas de sim-ou-não, são surdos de formação. no ministério das cartas altas, há interfaces e intermeios, ideias que protegem outras, surtações sim, mas muita blindagem, tanto de gentes quanto de informação. as curvas se contaminam, se misturam, não existe pureza no sistema: política de disputas, muita gana, fica um lembrete: a política é dura, mas é negociação. é perigo quando não se definem os temas, fica azul de imensidão

    (sabe, aquele que preenche as arestas, cega no horizonte e se deixa engolir no sifão)

    baderna é nossa aliada mais vasta, sim, posto que: vândalos são os policiais e seus mandantes. mas se nos chamam todos vândalos, se inserem vândalos entre nós, se vandalismo é a última moda da passeata multicolor da esquina, se qualquer passante é um vândalo em potencial, se o opressor é quem tem razão, se dão vazão às armas, tratam rua de cartazes como batalha campal, em suma, se nos bloqueiam, e atacam, seja nas ruas, em casa, em todo lugar, se não pode tanta coisa, se a fifa pode, se os donos podem, se a tevê pode, se o jornal quer convencer a sua mãe do nosso vandalismo, então sim, somos todos vândalos, vândalos venceremos, vândalismo vão de caminhar na rua, correr do gás, cair no chão..

    curioso notar que as bandeiras do começo eram pelo pleno direito de circular – de andar! pois se cortam as pernas e cobram caro pelas próteses, cobrem tudo de cimento e aqui só passa carro blindado!

    que espaço é esse forjado sobre tanta argamassa de minérios e gente que veio porque acredita que precisa trabalhar, que não come se não tiver sangue pra derramar, massa de manobra e ahhh.

    faltam dores cores palavras pra dizer o porque dos tormentos, a coisa é tudo menos plana, vigente mas cheia dos interstícios estelares e sem muitas rotas de fuga (antes houvesse – a rota maior pede uma passagem de volta, pagamento no cartão, endividamento)

    roda de chão sem voltagem, rebobina tudo, eu não quero levar porrada de policial.

    acordar com helicóptero, quintal de casa como campo de batalha.

    celebridades felizes na televisão, todos canarinhos.

    esporte é disfarce de exploração.

     
     

        * texto revisto, publicado originalmente no vocabulário político para processos estéticos

  • você abraça os homens e eles não te abraçam de volta

    você abraça os homens e eles não te abraçam de volta
    fogo no mato, filosofia da rua
    fechamento é só para os parças
    os manés, os machos com o rabo entre as pernas
    tanta gente com quem poderia apenas trocar ideia
    parceria, companhia, trampo y confabulações
    pois viram as costas, sequer cogitam conversar
    se não te veem se curvar
    soletrar seus nomes em desejo
    se te veem apenas como gente sem maldade

    matilha de um gênero só
    aquele que não nomeiam
    dominando chalés, governos, convenções
    nada de novo, mas chega
    que pequenos, vocês
    ingnóbeis anciãos
    desesperados por atenção

  • onde estão os teus amigos?
    eu olho para o lado e vejo
    um centavo jogado no chão
    da esquina
    quarentena e penso na praça
    tiradentes, antes da pandemia
    os corpos passantes os
    encontros travados, começados
    emperrados, abraços e uma
    perspectiva de
    alegria que fica para
    depois e então __

  • situ

    o corpo renova o gesto
    absorve
    somente entra
    o que brota
    entre as vestes

    abismos mais não
    agora, chão
    coisalinda
    absorto, pois
    em toda sorte de assuntos

    novos, de la casita
    de la vida nova que
    se instaura cá comigo
    das idas à universidade
    às atividades de escriba

    viagens celestes transformam manhãs
    com e sem sono
    do sol em minha boca
    da lua amarela, peste em fogo
    amor

    vem faceiro, agreste
    permeado de vozes e vorazes inventos
    cheios de vogais e consoantes
    vociferando mais alto
    mais turvo, mais manso

    fizemos um filme
    sim! película
    nossa boca tem nome
    uma imagem sequencial
    em fita cobre celuloide

    água faremos
    em fluidos mergulho
    como o filme
    que transborda
    e faz coro
    com a floresta:
    tem nome

  • &

    do silêncio que sumi
    sumi e parti

    e desabei e chorei
    cacos e caos

    terrível lembrança

    do que fomos
    do que vivi

    e se há tanto
    se recomeço

    é dois mil e vinte e três
    noventa e sete rasgos contados

    estradas que desejo
    e são meu corpo

    imenso
    povoado

    se perde
    quando retesado

     

    parado
    não fico não

  • zelo

    é bom que ele esteja na superfície. faz tocar.

    dongos, bongos, sinos. velhos sinais vultuosos de dormências profundas, de presença ainda que inerte. interage como ausente, ou quase, escuta – não lá.

    toque. vaz, vrum, vibra entre suntuosidades, chupa um grelo, eu sei lá, feliz.

    não pensei, fiz.

    assim se compõem todas as maravilhosidades que nos acometem. acontece. faz. há.

    extremo, voz dormente do sossego, que acorda e flerta com o gozo – alegria suprema, não toca. beira alguma coisa, ri, rotundas suspensas no ar

    beijo uma alcova, atenta,
    abraça meus galhos em total entrega, é bonito demais!

    some. vazia.
    algozes fariam, paratudo

    (diversões esmos festas contínuas compõem arestas, zelos. amigos, flui)

    música é só o que está vivo
    necessita
    pergunta o que faz além de –

    corte
    corre

    é tão paralelo que talvez nem
    compreenda

    ou se ocupe de
    exercer

  • sublevação

    o gosto das coisas. o pensamento.

    gosto de correria sem forma. gosto de lamento.

    e refuta. e refuta. e refuta.

    argumenta cinquenta vezes.

    cadê meu gosto pra escrever.

    gosto de cascalho. gosto – melhor que carro.

    qualquer coisa melhor que carro.

    qualquer coisa melhor que arguta. memória

    .
    .

    funcionário de empresa não sabe o que fazer com as férias.

    tiraram-lhe a vida – só lhe restam as férias. marcadas uma vez ao ano.

    agendadas com todo esmero, cinquenta mil meses de antecedência.

    a empresa detém todo seu escárnio. a empresa é dona de suas botas.

    pagou por elas.

    o instituto dormente lhe diz para esperar, esperar que as coisas vão mudar

    que vai chegar a aposentadoria e tudo será diferente.

    engrenagem. pra quê.

    funcionária vendo coisas para comprar na internet. qualquer coisa.

    afinal, o dinheiro tem de servir de algo.

    próximo passo, arranjar uma casa. tomar banho de praia.

    .
    .

    a lama nos meus calçados não vem da empresa. vem do solo.

    o sol lá fora não ecoa na empresa, pois janelas fechadas, argamassa

    ar condicionado, luzes brancas: muitas luzes

    pintura nova, limpeza constante

    funcionárias uniformizadas da limpeza sempre ao redor dos banheiros

    (que vida)

    pergunto a mim mesma o que faz um sujeito viver nesta condição

    é claro que temos os dados sociais, estatísticos

    sim, conhecemos umas vidas, umas histórias, mas

    o uniforme da empresa

    e a rotina e o ritmo de trabalho

    e a total rendição do sujeito em troca de – um troco –

    suas horas válidas

    não vale um pelejo

    .
    .

    sublevação

    supremo

    instinto

    de alguma coisa

    (existir)

    alguma coisa

    que seja

    vivo

    respire

    de portas abertas

    e saiba o valor do solo

    e das botas