• roupa

    ritmo, tessitura de tempo reverso.

    composição de nervura; processo.

    lavar roupa como prática artística. lavar roupa como gestual de braço, força pequena, corpo em riste cotidiano. lavar roupa como prática subestimada em todos os tempos de correria urbana. lavadeiras, seres rurais.

    – por que você não compra uma máquina, inês?
    – mas e sentir o processo, o fazer? o tempo é outro, não?

    (isso vale para tantos degelos de dobras, tantos variantes da mesma partitura)

    testo um ritmo; leveza. quando pesa revejo os trejeitos, penso se cabe um pouco lá, por fim cedo. às vezes o rumo é ceder, sem invalidar o processo.

    um ano inteiro lavando roupa na mão. arreguei por duas vezes bem esparsas: levei roupa pra lavar no rio de janeiro, carregando na mala. não tenho tempo, aquela frase tão sem vazão.

    não ter tempo é não dispor de si mesmo, não ordenar bem as coisas, priorizar sem saber como.

    (sabedoria de tempos mutantes, sempre se faz, se recomporta)

    aprendo tanto com gestos cotidianos, uma casa que se faz, precisa se fazer do zero, ponto de partida mirim para tantos gestos maiores, relutantes, aprendizes gigantes.

    mais difícil entender o que vem pronto, o que chega benfazejo de durezas de formas e poucas brechas entre azulejos para composição. gesto é composição, é cuidado, olhar o terreno e entender como ele te abraça.

    como se faz um abrigo? com que autonomia posso cuidar de um sustento?

    (não será com braço alheio, não será sem chão)

    (é quase música; repito, enveredo)

  • eixo (rindo)

    esperar as horas do sossego
    lapidar o canto,
    não pensar no desatino

    não secar as lágrimas
    dançar rodopiar
    em zelo

    aquece
    sou eu mesmo que
    canto

    sou eu mesmo que
    me envolvo num abraço
    na cama

    o suscinto: delírio
    amargo ardor de antes
    já foi,

    esquece
    caminha
    vai embora

    (já fui)

    nessa composição celeste
    somos só nós mesmos a lançar
    num rasgo num só bocejo num vulto

    rápido morcego eu sim
    eu vim
    cá estamos

    rindo

  • saltosuspiro

    saltosuspiroatiro_210615

  • escrever para ninguém

  • estrutura

    como se reinventa um corpo
    (um desejo)
    a olhar por ele mesmo
    a se ver

    campo ampliado lente macro
    composição inteira
    de pé

    sustento, de pé
    altura, de pé
    postura, de pé
    abdômen, de pé
    (bem fincados, peso distribuído)

    peito aberto
    olhar

  • mar

    a praia é um santuário que as pessoas vão visitar. aquilo que fazemos quando estamos lá, em companhia de pessoas, é apenas tratar como comum o acesso a algo extremamente poderoso, extraordinário. la mer, poderosa, o mar, iemanjá. a força, a energia das marés, da água viva em movimento que é o mar é sentida no corpo por horas depois de ir. e segue. relaxa os músculos, ajuda a respirar, a curar feridas, assimilar contratempos, amar. se amar. amar a si, antes. emanar calmaria, resistência. mesmo quem não mergulha sente, já que a maresia permeia o ambiente, está no ar, arredores. mas, sem dúvida que mergulhar é mais intenso, mais forte.

    cachoeira também é um santuário. a floresta como um todo. mas as águas, as águas. fonte da vida, mesmo! o que o mar limpa em profundidade com seu sal a cachoeira vem avivar. dar risadinhas com as cócegas fortaleza das águas. respirar ar novo, pura vida.

  • tudo aquilo que fomos,
    ainda somos,

  • colagem de chão

    territórios corrompidos, firulas demasiado belas para sobrexistir a qualquer asfáltico caminho, reinvenção.

    em campos de linho-semeadura, durezas vãs e decisões esquivas, além-trópicos ou no planalto central: que haveremos de fazer, que estratégias adotar, que tópicos consternar, que discussões postergar. ligaduras. caminhos. inveja tanta de algo que foi mas nunca fez, vontades, suntuosidades vãs de uma situação que não embeleza, pelo contrário, envereda em redemoinho e sabe-se-lá por onde mais.

    construir! rios, pontes, tessituras? diria mais é observar, observar e respirar, observar e estarmos juntas nesse lugar nenhum. onde colocar os pés, precisamente. da terra cuidar. aquebrantar as migalhas de civilização que nos fundam, que nos constroem, que nos inventam em descartes e poeira, poeira de caminhões. e cigarros.

    é curioso como uma busca de sentido que inauguramos com tanta alegria se perca e se misture a muitas outras lutas, e se torne sim mais complexa a cada dia. obviamente tem um quê de controle nisso, de uma vontade de lugar, de produzir eixo, cabo, chão.

    eu não sei chão, eu sei voltagens. desvencilhar. de último, só peço menos atribulações e tributos durante o percurso, que haverá de se atravessar.

    menos verbo, uma observação de gestos.

    uma dança de gestos. às vezes mais pronunciados ou cada vez mais em meandros, em semilinhas e meias falas, sugeridos, expelidos entredentes.

    não subestimar as ligaduras, ou mais precisamente as invenções de que dispomos, as ferramentas que recebemos.

    o ritmo que imprimimos na dança é o mesmo que irá orientar o percurso. a desenvoltura de perceber os mínimos caminhos e desviar, reestruturar, apresentar por mais óbvia que seja uma solução palpável, alguma que não haverá de rastrear.

    gracejos simples, cachoeira: cuide dos dentes, eu cuido do facão.

    linha escrita, em mãos.

  • expedito

    considera-se uma obra póstuma 

    pontapé para o infinito, luminescência. construção de mercado velho feito afoita velha vontade, eu começo, eu ando em intenção e invento circunferências. já estão ditas, já estão escritas com todas as palavras do vocabulário corrente, em línguas misturadas que se apropriam umas às outras, como indeléveis imagens.

    um começo é uma estória, um porque em manifestação interna sem que responda à pergunta. eu recortei, ampliei e repaginei o conto, remixtures da música, misticismos dos outros e mais uma dúzia de ovos. não precisamos de justificativas, mas de ações. o ato de alguma forma antecede a teoria, pode ser versão da própria, cópia involutária de outrem, pastiche calado que subscreve. por mais que procuremos entender, não mergulharemos em todos os universos, não será possível dar conta do todo; por isso a unidade, o sujeito parcial que não se contém em querer criar suas versões dos mundos em ambientes pelos quais transita.

    porco-espinho mede universos, conhece intelectos e tem sua forma mutável de transeunte. pessoa culta que sabe cotar bem o embaralho das coisas, curte filme francês e vestes de seu avô que sequer conheceu em vida. “estava cheio de tecnologia”, um recém-amigo disse uma vez durante o trajeto. curiosíssima observação, senso comum das palavras impressas no jornal. dizem tanto desses parques de diversões contemporâneos ao ponto de nem parar pra pensar o que de fato se observa. adentrasse sem teoria prévia, o que é pouco provável, diria estar numa casa de fliperama dos novos tempos, ou num parque de televisões: estruturas expostas da máquina e outros experimentos com a luz industrial mágica.