• _

    você está
    longe dos hábitos
    que te fazem mover
    longe das múltiplas
    saídas sumir de bicicleta
    correr

    você está há 10 dias em casa
    seria pouco,
    não fosse a memória recente
    da quarentena pandêmica o
    corpo não sustenta isolamento
    e quer encontrar

    a obra que então escrevo
    existe desde fevereiro
    desde 2010
    desde que vivi e não
    contei as memórias em papel

    ou
    sim, mas em outra forma
    compusemos pois em assunto
    vasto
    criança que fazia ali
    um caminho
    poesia

    começo de aventura um sei lá
    eu quero meu solfejo de volta
    minha rua, meu caminhar noturno
    um certo manejo para comparecer
    a eventos e ver
    as pessoas

    a obra
    ela vai hoje, vai
    ainda que o corpo arranque
    um último suspiro do desejo
    de mover
    e libertar o traçado
    a vida possível ela
    não é
    assim

  • feitura

    esse texto não é meu.

    a reclusão não foi premeditada.

    férias é comum, quase todo mundo tira. mudar de espaços é normal.

    procurar ordenação no caos, todo mundo faz. melhor que jogar pela janela (e se janela houvesse para).

    não pode parar e procurar tudo de novo, achar que com vazio reconstrói tudo? talvez. mas é difícil que dói.

    – se doía antes!

    – sim, doeu.

    joalheria. cor de joelhos e açúcar e lentidão.

    – tem amigos artistas, mas se é artista?

    – tudo questão de concepção.

    – assim como conceito?

    – como conceitura, de feitura, processo.

    – ah.

    – você não entendeu.

    – como você sabe?

    – dá pra ver.

    – tura. tinha um parágrafo grande do cortázar sobre as turas. eram muitas. grandiloquentes. importantes pra vida. talvez inevitáveis. olha, estou relendo cortázar.

    – reconstrói e relê cortázar?

    – reedito vídeos também. ou melhor: reedito ideias antigas em vídeo. às vezes nao sei se elas querem ser vídeo ou outra coisa. mas tento vídeo, que como texto pareciam ter menos dimensão. existiam, lá, na página do caderno. se uma ideia é boa ela merece talvez mais que uma página de caderno, não acha?

    – depende do caderno.

    – com certeza, mas é uma questão de dimensão. e de envergadura, de quanto tempo eu passo olhando para ela, até que se transforme em outra coisa.

    – parece que é importante construir esses espaços de visibilidade, não é?

    – sim, mas, também, de certa forma já houve o tempo (esses primeiros meses) para se dedicar às aspirações, contornos e toda essa papucaia. em suma, à hibernação. com ela vieram uma série de coisas, que talvez pareçam inconclusas à quem primeiro ver. pois não é melhor aceitar logo duma vez que todas as coisas sofrem de incompletude, em maior ou menor grau? porque podem sempre prolongar uma membrana, deixar nascer mais um elefante entre os dedos. se faz mal? pode fazer, depende de como você ordenar. como um enxerto de planta. se mistura, tem que cuidar pra não corromper. senão, o braço cai.

    **

    e outro dia alguém me pergunta:

    – você nunca fez chá de fita, inês?

    – …

    que coisa é essa que faz a gente decretar abandono de umas coisas frágeis que um dia fizeram parte do que somos? pois se ainda somos, ainda fazem parte. talvez umas coisas com imagem, travessuras, modismos e construções. sim, é isso: você de repente se dá conta de que precisa construir, e para isso invariavelmente irá deixar de lado algumas coisas. curadoria, seleção. com justificativa e conceito, que vai se formando. procura uma imensidão em coisas súbitas, se traveste, muda de grupos, joga tudo o que tem no quarto fora. precisa viajar pra saber ver de novo, para saber ouvir. precisa chorar distante, às vezes, precisa pegar um avião e dar umas boas gargalhadas, se sentir leve outra vez.

    – ver nuvens e malhas molhadas. nunca me esqueço de veneza, vista do avião. umas terras alagadas. as pessoas falam, é claro, mas ver de perto é outra parada. eu fui lá, pôr o pé numas terras alagadas. vinha dos países baixos, que também têm uns tantos canais e se constróem em artifício sobre um terreno que é abaixo do mar. que loucura, esses artifícios. no meio do caminho atravessei as planícies enquanto lia moinhos de vento pela janela, e minha carona que só tinha sorrisos para comunicar. foi bem feito, 10 horas de trajeto porque tinha trânsito, e possivelmente a única viagem de carro da minha vida em que não enjoei. e nem podia, não tinha curvas! que loucura, esses países de planícies sem curvas. concluí que burger king devia ser o graal de lá.

    – esses seis meses eu vou viajar bastante. não sei manter esses fios tortos abaixo dos pés – faz sentido?

    – se faz. e você pode viajar?

    – como disse: é uma questão de envergadura. preciso dar dimensão. tem vezes em que as distâncias daqui ficam curtas, dóem demais porque perderam o traço ao caminhar. dureza de transportes, de decidir, de coisa morta. círculos concêntricos que me medem as pernas, às vezes caem. daí que é só mover uma folhinha amarela que pronto, talvez assim a máquina volte a funcionar.

    **

    para participar da representatividade das coisas sólidas, apareço. talvez só seja possível o jogo dentro dos espaços, mesmo que – mesmo que tudo. fincamos o pé, não se sabe por quanto tempo, para mais um rolê dos espasmos coletivos. entre vozes alertas e absortas, inundados de travessuras e comércio.

  • correria

    fui contar estrelas
    encontrei escombros
    da minha última jornada.

    corri para o quintal
    e gritei pro céu
    por que tamanha bobagem?

    daí recontei
    todas elas
    sem número exato
    nem firulas

    e não é que acabo as engolindo?

    escorregando pela minha garganta
    fanfarronas, esbeltas
    correm felizes
    pelas colinas vermelhas!

  • nino

    nino pesa não sei quantos quilos, mas é preto com um brilho azul, mais alto e mais magro que seu antecessor. possui uma pequena curvatura na tampa, mas isso é mais charme que imperfeição. e se adapta lindamente aos seus olhos grandes.

    nino gosta de jogar, e é um pouco esquizofrênico: chegou a apagar uma identidade inteira, e agora a confunde com a principal! mas não tem problema, ele prefere os softwares livres e não tem medo de trabalho. gosta de ver figuras e de ler também, mas às vezes imprime pra não cansar a vista.

    ele por enquanto se veste de azul bem aos moldes tradicionais, mas eu sei que de careta não tem nada: me pede de vez em quando as mais diversas peraltices! oh sim, o mais importante, nino, mesmo sendo tão novo, é extremamente multimídia: gosta de imagens e sons, parece com a mãe. veio ao mundo sem pai, que isso é coisa obsoleta. independência, menino, é assim que se faz!

  • _______

    eu estou aqui fazendo essa tarefa difícil. ela, em sentido maior, nada tem a ver com você. mas, se alguma vez na vida você tem como ajudar uma pessoa, faça. sei lá, me parece uma práxis digna. se não tem um custo assim tão grande. algumas pessoas a praticam. eu procuro praticar. outros têm praticado, a contribuir para que os outros caminhem para a frente. se quais os motivos fazem um pé empacar, um pedaço de roupa ser fisgado por um arame farpado, ou o porquê de haverem arames farpados pelo caminho, maiores ou menores, isso interessa? podemos falar sobre isso, mas não parece que interessa. os motivos de cada pessoa podem ser lidos como participantes de um problema endêmico, histórico, circunstancial maior, e podem envolver isso de outros modos, ou não. de novo, se interessa, acho até que já verbalizei muito, soou em vão. é o em vão que incomoda. o intervalo entre uma fala e outra, uma certa negação esquisita, um pouco enviesada. em conjunto, se explica pouco pelos modos convencionais.

    os esforços não parecem findar. há uma estrutura que está a beira de, quase ao cabo de, mesmo que digam que poderia ter ido bem mais. que os motivos são vistos como firula, qualquer coisa por aí perdida num dia de trabalho. acontece. trajetórias distintas, caminhos, as pessoas têm planos, procuram, estudam, e o tempo corre corre. o aluguel vence todo mês. a gente vive numa sociedade em que pensar – e argumentar – é visto como algo a parte, algo que não cabe, ou cabe pouco, se deixa passar. o pé que não arreda do pensamento crítico e da pesquisa é mais conhecido das grandes vozes, dos ruídos de bar, dos acessos privilegiados, da reclamação cotidiana ou das vozes que se fazem grandes apagando outras, também. e dos homens. às mulheres cabe, sei lá, tentar.

  • inês nin ~ ESPAÇO AVI
    15 a 25.08.2016
    Brasília/DF

    °

    para uma residência, pede-se comumente portfolio de artista e/ou uma proposta de trabalho a ser desenvolvida

    deste momento entretempos, em que me equilibro e nos equilibramos adentrando tantas catástrofes, maravilhas e cotidianos sortidos, a práxis nós inventamos, e sobre isso

    tenho trabalhado o improviso,

    imergindo em atividades que envolvem esse reagir rapidamente a uma interferência, a uma situação, investigando modos de sair dela ou contornar seus movimentos, dançar conforme os ventos

    um estudo de ações que só acontecem no tempo/espaço real do agora, repentino mas também repleto de respiros e observâncias

    corpo alerta; relaxado e alerta

    :

    em curva, anotações e leituras, perambulações sonâmbulas por entre os espaços, gravações de gestos, posturas e meditações em vídeo, rascunhos, escritos, recortes

    (quem sabe chame-se uma metodologia)

    de abalos sísmicos e refúgios, me concentro muito no lugar interno como modo de reorganização. dentro de mim bosques, florestas, praias vazias, montanhas. arriscar o prumo –

    uma bússola

    no metrô: rodopia, louca (leio como transtornada pela velocidade)

    no avião: ?

    (testaremos uma bússola a bordo da aeronave)

    >

    admiro voar, gosto de alturas e até pilotaria aviões. contudo, estou pouco habituada. meus modos de locomoção na vida, praticados com frequência, em geral se baseiam nos pés, na força propulsora do corpo. caminhadas, pedaladas, danças, pulos, corridas. sobre rodas, além dos pedais, muitas vezes ônibus, poucas vezes carro, raras vezes motocicleta. voo, sim, desde criança, quando me contam que na primeira vez, em vez de fitar as nuvens e olhar pela janela, eu preferia me concentrar em comer iogurte.

    encontrar nuvens numa estrada, trilha ou escalando uma montanha: me instiga e embeleza os instintos.

    subir

    eis aqui um monte de textos escritos sobre isso, vontades, desejos, propulsões e movimentos na medida em que conseguimos alcançar

    (alguns requerem anos de treino)

    assim como fugas, levamos uma vida a contornar e descobrir saídas, modos de sublevar ou rachar os modos correntes

    – movimentos muitas vezes abruptos, como fechar um apartamento em menos de uma semana –

    que acabam por decorrer em meses um pouco embolados, malas que se dividem entre cidades, transições pouco previstas, mas eis que

    de novo uma casa, mudança operada quase sem perceber, recebida com gratidão profunda e sim,

    uma varanda! aqui temos céu e plantas!

    >> >

    seguir viagem, depois de um respiro e umas tantas reviravoltas, ocorre como o suprassumo destilado de uma decisão,

    revista e reverberada em solitudes, idas e vindas, intenções

    (revista a intenção e ajustado o eixo que vem-e-vai para uma posição mais confortável)

    a temperança acaba de me ocorrer como carta no tarô em forma de livro que jodorowsky delegou a minhas amigas, e que tenho usado como oráculo

    o número de 9 dias que escolho para essa estada se refere ao que o momento oportuno (kairós) pode me oferecer no momento e o aceito de bom grado, buscando um equilíbrio entre os caminhos

    é também o número do eremita, carta que me saiu logo antes nesta forma livro que consulto. provável que por um hábito que vem de leituras do i ching, oráculo de origem chinesa em que se usa moedas ou dados para se chegar a uma soma de traços (um hexagrama composto de dois trigramas) e então ler sobre ele em um livro, com recados que se deitam sobre linhas contínuas ou partidas

    investigo oráculos e me instiga profundamente o fato de sentidos e significados tão profundos (e narrativos, em sua interpretação) serem acessados pelo método do acaso. creio, talvez só um meio de acessar uma sabedoria, conscientizando-nos que o que sentimos e pensamos também influi nos resultados, e ainda nos fatos.

    °
    pisarei pela primeira vez na região centro-oeste do brasil na próxima manhã, dia 15 de agosto de 2016, menos de um ciclo lunar decorrido desde o último dia fora do tempo (25 de julho), em que se inicia uma nova onda encantada segundo o sincronário maya

    a lua se encontra em fase crescente, para a qual aprendi um novo rito de prosperidade que envolve fogueiras (e podem ser feitas a cada lunação).

    celebraremos os 32 invernos decorridos desde que abri a boca neste mundo no meio do percurso, à lua cheia

    e por fim, à lua minguante, seguirei viagem de novo ao rio de janeiro antes de voltar para casa.

    durante esses 9 ou 10 dias de residência (considerando-se que chego na manhã do dia 15 e parto na manhã do dia 25) penso em ter uns poucos prospectos (para além dos improvisos e trabalho cotidiano)

    sabemos que

    : encontrarei outra residente entre os dias 19 e 21 de agosto

    : pretendemos ir a alto paraíso, quem sabe acampar

    : tive ou acredito ter tido pouco contato com a vegetação típica da região do planalto central, apesar de o cerrado também ser identificado com o estado de são paulo, muito desmatado, onde vivo. e portanto pretendo observá-la, se possível mergulhar nela, como costumo fazer em florestas (há muitos modos para isso)

    : o quintal é propício para fogueiras e também projeções 🙂

    : trabalhamos com o vídeo (a ser revigorado ou re-desbravado em processos de edição em software livre), com a fotografia sobretudo analógica, com as danças, com o silêncio e a escuta, com uns poucos ruídos, com rabiscos e a famigerada escrita

    : estarei em pesquisa de movimentos corporais no lugar

    : terei que dar conta de um certo cotidiano no sentido mais prático de afazeres remunerados, e que deverá ser muito bem ordenado de modo a conviver com as práticas de alegria e criativas em geral (o que de algum modo todas são)

    : a bússola principal será a temperança, com o respiro como seu aliado

    : ocorre, portanto, algum exercício de cálculos, a ser combinado com o improviso (descoberturas e cessões)

    : haverá um aniversário e uma exposição de yasmin no mesmo dia (todos os bons presságios)

    : prevê-se ou seria interessante ou importante organizar uma abertura de processo com convidados no espaço. sugeri o dia 23, mas como os próprios processos ainda se fazem, e as datas se ajustam em certa medida interna, decidiremos quanto a isso conjuntamente;

    : estou animada!

    os estudos recentes apontam para quaisquer práticas ou referências que envolvam ESPIRAIS, dentre os quais têm sido vividas/observadas

    – as espirais no corpo, enquanto torção em movimentos levíssimos e gentis na arte marcial kinomichi;

    – estar dentro de uma espiral e se orientar nela, atravessando com maestria e entre muitas pessoas, como no treinamento de dança passing through (atravessar);

    – espirais na natureza, como parte da observada geometria sagrada, que se repete em redemoinhos, tornados, na pia, na privada, nos oceanos, nas plantas quando brotam e em nós, bichos;

    – sentidos figurados empregados na fala e na prosa, quando se fala em espirais e o que denotam.

    *

    RESILIÊNCIA é outro termo-chave, que pontua fortemente a pesquisa ‘corpo, ambiente e resiliência’ que desenvolvo desde 2014-15, e vai de encontro com espirais (como formas de atravessar e lidar com, mas também de encontro consigo e versatilidade no lidar com as diferentes situações que nos deparamos)

    é premente o estado climático em que se encontra o planeta, fato conhecido, e no nosso entorno observamos inversões climáticas, secas e outros problemas graves que decorrem de práticas predatórias com a terra e devastação de florestas

    da região do planalto central, onde se encontra brasília, noticia-se as frequentes queimadas espontâneas devido à temperatura, o clima seco e as práticas anteriormente mencionadas (que se apresentam em diferentes medidas e desmedidas)

    braslília também é local onde se centralizam os acessos à região amazônica, importantes discussões que envolvem índios de diferentes etnias, indigenistas, pesquisadores e articuladores ambientais de modo a lidar com esses problemas

    encontrar esse lugar construído há poucas décadas e que foi, transversalmente, tornado capital do país, será importante para compreender localmente, com os pés e corpo presente e de maneira ou de outra e certamente muito particular, como operam as instâncias ali localizadas e também os corpos, considerando-se arquietura e questões de deslocamento

    estar na cidade porém em meio rural (no córrego do urubu), acredito ser a melhor maneira de experimentar esse espaço compartimentado que são as cidades, que dirá as modernas, e que ainda comporta cachoeiras

    de céu e cachoeiras avistamos danças (alegria)

    e em danças, certamente significa qualquer atividade situada na região que se conecte com o corpo (exceto as academias, corporativas), nas quais se sobressaem as acrobacias e aquelas que misturam corpo e ambiente, ou são feitas ao ar livre

    (avistei algo de acrobacias e bambus, não encontro agora)

    (no mais, quanto mais arriscamos, melhor. é tempo de atravessar e também conter velocidades. por isso planos serão mínimos; somente apresento observações e orientações para o percurso)

    (me calo, irei observar os melhores modos de andar)

    com alegria,
    e até jajá,
    >>

    inês.

  • brincadeira de criança, para além-horizonte

    experimento em narrativas midiáticas, dois mil e seis, niterói

    um risco no vazio, será possível? o fósforo acendeu, no meio do nada, não fui eu quem quis assim. simplesmente aconteceu.

    e agora todas as nossas vidas passadas, enroladas em banho-maria, deveriam envolver-se também? exatamente como fomos todos sucumbidos pela força gasta nos dias de trabalho ininterrupto. meus tempos nunca são os mesmos que os teus, ou penso eu ser dotada da infelicidade de experimentar tudo ao contrário: primeiro o fim, as brigas e os tormentos.

    um beijo na tua testa, para pedir perdão e lembrar de carinho, também. e depois uma lambida nas costas, que nem só de afagos digitais nós vivemos, um dia quando acontecer.

    minhas ilhas sonhadas, sem arquitetura de shopping ou qualquer ordem, havia senso de competição nisso tudo, constava nos planos? o propósito de sempre se divertir mesmo se tudo desse errado ficou, mas só ele, sem querer alcançar alguma coisa, não dá conta.

    se você vai mudar de vida ou se eu vou tomar jeito e ir trabalhar, só saberemos com o passar dos bocados. até lá, quando me faltarem palavras é porque algo de bonito eu omiti por não me permitir os excessos…

    em um desses dias de ano novo eu devo ter feito um pedido, assim, de brincadeira (pois não sei se acredito em nenhuma dessas coisas), o de viver algo que não pudesse imaginar. porque penso que se já fui capaz de imaginar os mínimos detalhes de várias histórias, já proibi todas estas de existirem de verdade. minha imaginação nunca corresponde ao que verdadeiramente acontece, ou é a memória que não é capaz de dar conta de verificar. mas, conferindo qualquer uma das duas hipóteses, o que acontece de real sempre vai além. talvez seja esta a característica mais excitante de todas as histórias, caso não seja a minha imaginação por demais desprovida de criatividade.

    talvez eu tenha deixado as brincadeiras-de-videogame (as quais pra mim sempre foram equivalentes a brincar de imaginação) jogadas em algum canto empoeirado da minha infância, e por isso, todas as histórias criadas em papel palpável, mortas.

    se acreditasse nas minhas próprias, as reais e as imaginárias, possivelmente poderia também acreditar que um dia nossos avós morrem, e não só os avós, que uma amiga vira aeromoça e o outro vai morar na islândia. que nem só de sonhos são feitos os dias, mas que eles existem de fato essencialmente para esboçar o futuro. se não cometem a proeza de acertar nos detalhes, podem ser ainda e sempre ricos em firulas, cartões postais enviados dos lugares mais distantes e das situações mais dignas de desenhos animados.

    eu, no meio de uma praia deserta, gritando “adeus!” a um navio que parte. eu, correndo numa praia deserta, dormindo numa praia deserta, bebendo água de coco o dia todo. eu, surfista… quanto tempo preciso para lembrar que quero ir à praia? ficaram presos nos desenhos animados? (os sonhos? as praias desertas?)

    eu, piloto de avião, desenhando num céu azul, caracóis. eu, subindo os alpes suíços, dando uma palestra a estrangeiros. eu, posando para uma capa de revista, dando entrevista sobre a minha banda de sucesso! nem só charlie brown pode possuir uma banda. aliás, charlie brown…

    muita lenha queimada nos dias da minha infância, uma quase infância-wannabe, depois destes tempos de vida em apartamentos e o fim dos sítios-refúgio. banho de rio sempre foi uma referência, mas competitividade não. me ensinaram a ser feliz, mas o caminho seria algo a descobrir sozinha.

    o cheiro de lenha me acompanha até hoje, está no lugar-home do conforto assim como o céu estrelado. depois, os telefonemas de voz sobre ip ninguém poderia ousar prever, talvez nem uma questão de achar extraordinária a situação, mas… nem só de distância vivo, ainda mais aquela construída.

    olhares oblíquos para além-horizonte! peixes nadando em voltas, fazendo espuma e sons bonitos na água. eu, sentada na areia, fitando a lua nascente.

  • parede

    sem lugar para o gosto
    verbo, sem lugar para a dança
    (lugar)

    a-lugar eu faço, a esta hora
    não antes, depois não saberei
    o que seria dos rejuntes sem estes cantos

    (e tantos anos sem ao menos uma linha escrita, aberta)

    fechadas casas são as tuas, apesar de entrar
    conheço tantos meninos com medos
    de serem entrada, passeio, abertura

    não era a tua, mas hoje
    sempre reparo quando falas dos beijos dos outros
    os beijos dos outros não existem seus
    não lá

    (como se negasse uma possibilidade, exame)

    ação que em si mesma é só uma memória enviesada
    recente, confusa,
    clara em linhas retas de parede perfurada
    sem chão