é preciso abandonar um universo para ir de encontro às coisas. poderia descrever minuciosamente alguns acasos, ou atravessar em vendavais os maus transeuntes. são públicas, as memórias. estão em desgaste corrente as multidões, que no entanto ganham força. sobrepõem-se continuamente. multidão-livro. multidão-blusa. multidão-multidão e categoria nenhuma. tentativas de apreensão rotineiras são contrapostas a evidências históricas, nenhuma animadora no presente momento. as versões que se estabelecem ululam, reinvindicam o poder para si, e esfacelam craquelê na esquina mais próxima. é invisível, o poder protocolado é invisível a si próprio, nariz entupido em sangue. existem rastros e razões diversas, controversas, justapostas, em guerra. é tão cansativa a guerra que meus neurônios pedem ar – um ventinho leve de vez em quando, para proliferar vulcões na costa alheia a nossa, ainda que vá. sempre irá. a energia está fervente, é difícil resistir, ela vem abrupta e toma conta de tudo. o sol lá em cima quase sempre alto, quase sempre enorme, a lua enorme, a crosta terrestre enorme, e as conexões wifi segurando tudo em uns cabozinhos, parecendo inocentes. nunca o foram – tamanha ilusão. construída a coletividades tão vastas, atingindo os cantos mais fundos, tudo mediado. tudo em público. são públicas as memórias do povo. somos públicos mictórios. construímos em bases que bebem em papel marcado, obsolescência de mercados, viagens além-mar. ecoam em si próprias sobrevalentes, insurrentes, novas velhas vozes que nunca ouvimos porque mediados, agora juntos. juntos, mediados e em público. que vozes. que campos permeiam esses caminhos, coletividades vozes, continente.
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(-)
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no momento
que antecede
o recuoali
faíscas movediças eu vi
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caos
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combater o deserto com lapadas de ferro, fogo y fumo
não desertar do desejo
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rumo
1_semmedo
compreender o sossego por entre as curvas. sim, é essa a tarefa suprema a realizar.
como proceder? digo, conheço uma penca de procedimentos, talvez não aplicáveis a todas as instâncias. primeiro tem de compreender a fissura, olhar entre as bordas dos cadarços e cada modo de lidar com os ambientes. não se faz a novela como coisa pronta, tem de aprender a ver.
pois que lide com o processo, seus não-lugares e trejeitos incômodos.
talvez, o único jeito voraz de superar os acasos, aqueles que se convertem em desgostos, sem rapidez (como hão de admitir os jovens, vez ou outra).
é preciso um plano. talvez?
pontapé para o infinito, atadura. semmãos, semmedo, mmordedura. coragem, aquilo de que tanto falam os clássicos romanescos sem era, que se sobrepõem a uma realidade turva, demasiado complexa para nossos contos de fada caninos. anacronismos de infância, maus adestramentos. depois de um tempo, os embalsama todos e transforma em leituras de maniqueísmos diversos, notícias sem profusão nem densidade, as quais só se lê às partes. reitera discursos ou cria coisa alguma, mas segue algum rumo estrito que supostamente se concretiza. ou não, engole a rebelião e bate ponto no escritório, todos os dias, eis o método que seu pai lhe ensinou.
o herói não compreende seus trejeitos, seu namorado no masculino como não poderia imaginar. e depois a família toda vê a foto, porque não a imaginava tão visível, todas as membranas da vida se sobrepondo, como cadáveres. é tudo tão transparente que dói, no semmesmo da estória. compõe de palavras e imagens uma contação sem fim de protestos, amores e títulos de algozes. todos estudantes e ansiosos por se formar.
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expedito
considera-se uma obra póstuma
pontapé para o infinito, luminescência. construção de mercado velho feito afoita velha vontade, eu começo, eu ando em intenção e invento circunferências. já estão ditas, já estão escritas com todas as palavras do vocabulário corrente, em línguas misturadas que se apropriam umas às outras, como indeléveis imagens.
um começo é uma estória, um porque em manifestação interna sem que responda à pergunta. eu recortei, ampliei e repaginei o conto, remixtures da música, misticismos dos outros e mais uma dúzia de ovos. não precisamos de justificativas, mas de ações. o ato de alguma forma antecede a teoria, pode ser versão da própria, cópia involutária de outrem, pastiche calado que subscreve. por mais que procuremos entender, não mergulharemos em todos os universos, não será possível dar conta do todo; por isso a unidade, o sujeito parcial que não se contém em querer criar suas versões dos mundos em ambientes pelos quais transita.
porco-espinho mede universos, conhece intelectos e tem sua forma mutável de transeunte. pessoa culta que sabe cotar bem o embaralho das coisas, curte filme francês e vestes de seu avô que sequer conheceu em vida. “estava cheio de tecnologia”, um recém-amigo disse uma vez durante o trajeto. curiosíssima observação, senso comum das palavras impressas no jornal. dizem tanto desses parques de diversões contemporâneos ao ponto de nem parar pra pensar o que de fato se observa. adentrasse sem teoria prévia, o que é pouco provável, diria estar numa casa de fliperama dos novos tempos, ou num parque de televisões: estruturas expostas da máquina e outros experimentos com a luz industrial mágica.
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você está
longe dos hábitos
que te fazem mover
longe das múltiplas
saídas sumir de bicicleta
corrervocê está há 10 dias em casa
seria pouco,
não fosse a memória recente
da quarentena pandêmica o
corpo não sustenta isolamento
e quer encontrara obra que então escrevo
existe desde fevereiro
desde 2010
desde que vivi e não
contei as memórias em papelou
sim, mas em outra forma
compusemos pois em assunto
vasto
criança que fazia ali
um caminho
poesiacomeço de aventura um sei lá
eu quero meu solfejo de volta
minha rua, meu caminhar noturno
um certo manejo para comparecer
a eventos e ver
as pessoasa obra
ela vai hoje, vai
ainda que o corpo arranque
um último suspiro do desejo
de mover
e libertar o traçado
a vida possível ela
não é
assim -
in
insenin
inse
insluar
insular
insu
eluc.
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2022 (profanado)
marte entrou em gêmeos
no dia do meu aniversáriominha lua, meio do céu, kiron
teu ascendenteagora mercúrio, almuten figuris
no meu mapa,retrograda
do teu mercúrio ao meuque dirão estas vozes
ou este silêncioda libra ao virgo
da beleza à especificidadeda balança ao detalhe
irritado, diz alice
eu reconheçohá certo gozo do intelecto
convite para uma fala dançantegorjeio gracioso
verborrágicoe quando isso acontece
é bom sinalinstiga, reverbera
a vênus, aliás
também virgoé porque as vênus e es mercúrios
andam juntes
nos nossos mapasem diferentes casas
e ainda mercúrio
volta a ficar diretono dia do teu
aniversáriomesmo dia das eleições
aquele diaque é lembrado
desde o reveillonvibrando
uma viradaque nos faça pulsar
vidae já sei, sabemos
como tantos indícios trazemuma conciliação
algo de novonão sei se de libra
ou de martese urano
ou a luaacho que sim,
sagitáriocomo estava
no dia de sem palavrasquando cedo vitória disse,
no teatro,algo sobre o amor
bem bonito, perco os detalhesmas lembro
e falodo dedo no cu
as pernas abertasa bota
tomar no cu
você precisaeu disse em verbo profanado
é real
sentir na peledeixar entrar
;
naquele dia
da entrada de marte em gêmeosrespirei do estômago revolto,
de novo,meu dia, reencontro
sabe lá o que seriaum show, uma névoa
uma cortina estilhaçadaum campo aberto de ideias
disse tudo aliprecisava
como pôr o corpo em riste
de novoinventar outra maneira de
estar pertosem esforço
sem desalentoreescrever o encontro
somente estar inteiro



