• rito

    chuva em imperatriz, nevoeiro em bagé
    não estamos
    não estamos lá

    a cidade se soprepõe tanto
    ao longo dos anos, das fases e das horas do dia
    que estou sempre levantando escombros

    escombros doem as costas caem
    escapo, não sem alvoroço
    estratégia é também ruído, ainda que

    estou doente de ar
    falta de atribuições fluidas
    atribulações voluntárias

    carinho que dá meia volta na rua
    desaquece, procura
    vastidão de medos e o que

    faço a esta hora de novo em cima
    do chão, em cima das pedras, sobre
    o móvel da cama, quebrado

    que hospedou as vozes e depois limpar
    os corpos moventes os rastros
    e encontros que desatinam

    se rompem às metades, não comparecem
    desembaraçam fios e estão sempre
    a se embebedar

    o rasgo das ruas, não compareço
    e quando vou reluto, incansável
    para que não sejam arrastados os pés

    o coração, se ele existe
    e não descamba a pingar
    tanto, que tanto engole e se volta para dentro

    lutas ferozes para não se fechar
    não aquele luto de novo
    insuportáveis meses tão recentes

    dos quais ainda bordo costuras
    e poucos sabem como
    as negociações

    as contas de abaixo de zero abandono
    por falta de melhor jeito momentâneo
    me julgam, vejo fugas

    medos alheios enquanto estaríamos juntos
    coletividades dissolutas diante dos piores danos
    medos, intermitentes trampos, cooperações falidas

    fôlego, e vida
    descampo
    desmemória vez

    dançar furiosamente e como se
    a ordem dos processos fosse feita de que
    forma, canto, ordenação

    uma por vez
    os caminhos
    não é uma abertura é um rompimento

    que ensaio, engatinho
    hesito até não poder mais
    os modos os meios os dificílimos estragos

    as construções
    os prazos embalsamados em pequenos lances
    medo, daquilo que poderia, se

    estivesse à altura dos próprios desejos
    isso, talvez, um tanto

  • andarilhe

    de toda intenção de florescer, agora revolto em sustento. de novo isso, mas isso sim, isso de novo, isso teremos de sustentar. sustentar o sustento. coordenar a procriação da dança, o benfazejo com esmero, toda esperança: laboriar, laboriar, laboriar.

    DSC_0912

    re-criar os modos como se laboreia. refazejo de forma, de estrutura. confecção de linha, porventura.

    das variáveis, constantes:

    esse fluxo de vozes imbocáveis que atravessa o corpo, todo o tempo. uma onda de caos, uma onda de amor. me atravessa, está aqui. agora grito, estribilho, tudo fica dentro. guardadinho. enviesar todos os preteridos para depois, todos os assuntos. não existe depois, existe uma linha que se domina, que se tece, é tecida pelo tempo. costura mesmo, invedação. corrobora com os caminhos se de caminhos é feita ela mesma. e então sair

    dominar o alimento. máquinas, admitirei cedo ou tarde, as esnobo. possuir o mínimo, agir como se está, simplificar os modos de andança. porém, eis que algumas, eis que usufruto, estou em. máquinas, operar com minimalescos botões de mimo, miniatura, antevendo já todos os traquejos que acontecem quando não se prevê máquinas, sim máquinas, botões, procedimentos, tudo o que já está dado como propriedade. o erro, o erro ocorre quando não prevê mas também quando excede, assunto de acomeço e invento, reverbera.

    re-estudar e estruturar os usos de uma série de ferramentas que coordeno. sim domino, algumas, algumas partes, mas então as re-descubro, observo, deixo reverberar. tem um montão de ideias e construções que não fariam parte se, se não houvessem madrugadas. e esses horários – não há mais horários escriturários com que cumprir.

    um mês depois, um estribilho. selo, carimbo, estampilho. criança acordada, criança turva, os olhos de novo, de novo, aqui.

    de andar pela cidade sem chão envolta em tinta de árvore urucum que seca ao redor do tempo. as ruas vazias, tantas ruas vazias na cidade gigante e a essa época sempre aparece um ou outro ciclista repentino cantarolando um funk, fantasiado de rosa, um pedestre contínuo.

    uma senhora bordada toda florida observa periquitos entoarem na copa de uma árvore. no meio do caminho, a saúdo, sorrio – a dar com os cães na rua como sempre me ocorre, ladrilhos, arredios, que me latem – ela diz: olha para o céu; as pessoas olham muito para o chão.

    e ficam duras, arredias. emburradas a empurrar suas crianças para dentro de caixinhas mínimas, elas não merecem isso.

    elas obedecem sim florear obedecem com esmero obedecem e des-existem aos poucos obedecem aprendem floreiam floreiam floreiam esperneiam e pois assim, subir em árvores, cair no chão. de maduro! assim como colhia mangas há dois tempos, o ano do verão, do relembro como é andar sem chão e sorrir

    andarilho, de novo essa peça, essa peça de cabeça que encaixa e ei! sei assim andar!

  • das muitas esquinas um rasgo; um arroubo um baile alegria

    nós fomos ricos nós fomos serelepes nós fomos turvos nós nos divertimos um bocado nós celebramos nós choramos mas tantas vezes e tantas horas sem saber um ensejo um caminho por onde ir um altiplano uma subida na esquina um cantinho aberto para ver o campo todo sorrindo a galera toda cantando um lugar ao menos sem partir o terreno o suor correndo a memória o desejo tanto sofrendo o amor eu amo derrete

    mijar ali atrás meu encanto vem ser feliz de novo eu disse ela disse gritaram era louco gritaram não dá mais gritaram sem condição alguém lembrou que podia ser diferente e a gente abriu abriu ao largo na história fizeram rodinha fizeram dançar até o chão fizemos abraços múltiplos não é um sonho é construção meu amigo não romantize não tô romantizando tô vivendo amor

    é partilha
    é múltiplo
    é uma torrente de danos que depois de tanta luta meu caro é isso agora não é perfeito é o que há é caminho é luta é disputa é jogo é jogo meu bem não se incendeie mais

    eu incendiei a praça vinte vezes vocês viram?

    eu compus manchas coloridas no chão eram azuis

    pisotearam mil vezes apagou

    o rastro ainda está ali

    na rua naquele beco onde sonhamos era beijo era sonho não

    na beira

    num lapso de segundo

    num cansaço extremo alegria nem sei

    nem por um instante duvido

    do saber

    deste mundo

    é vivo

    é corpo

    é junto

  • brincadeira de criança, para além-horizonte

    experimento em narrativas midiáticas, dois mil e seis, niterói

    um risco no vazio, será possível? o fósforo acendeu, no meio do nada, não fui eu quem quis assim. simplesmente aconteceu.

    e agora todas as nossas vidas passadas, enroladas em banho-maria, deveriam envolver-se também? exatamente como fomos todos sucumbidos pela força gasta nos dias de trabalho ininterrupto. meus tempos nunca são os mesmos que os teus, ou penso eu ser dotada da infelicidade de experimentar tudo ao contrário: primeiro o fim, as brigas e os tormentos.

    um beijo na tua testa, para pedir perdão e lembrar de carinho, também. e depois uma lambida nas costas, que nem só de afagos digitais nós vivemos, um dia quando acontecer.

    minhas ilhas sonhadas, sem arquitetura de shopping ou qualquer ordem, havia senso de competição nisso tudo, constava nos planos? o propósito de sempre se divertir mesmo se tudo desse errado ficou, mas só ele, sem querer alcançar alguma coisa, não dá conta.

    se você vai mudar de vida ou se eu vou tomar jeito e ir trabalhar, só saberemos com o passar dos bocados. até lá, quando me faltarem palavras é porque algo de bonito eu omiti por não me permitir os excessos…

    em um desses dias de ano novo eu devo ter feito um pedido, assim, de brincadeira (pois não sei se acredito em nenhuma dessas coisas), o de viver algo que não pudesse imaginar. porque penso que se já fui capaz de imaginar os mínimos detalhes de várias histórias, já proibi todas estas de existirem de verdade. minha imaginação nunca corresponde ao que verdadeiramente acontece, ou é a memória que não é capaz de dar conta de verificar. mas, conferindo qualquer uma das duas hipóteses, o que acontece de real sempre vai além. talvez seja esta a característica mais excitante de todas as histórias, caso não seja a minha imaginação por demais desprovida de criatividade.

    talvez eu tenha deixado as brincadeiras-de-videogame (as quais pra mim sempre foram equivalentes a brincar de imaginação) jogadas em algum canto empoeirado da minha infância, e por isso, todas as histórias criadas em papel palpável, mortas.

    se acreditasse nas minhas próprias, as reais e as imaginárias, possivelmente poderia também acreditar que um dia nossos avós morrem, e não só os avós, que uma amiga vira aeromoça e o outro vai morar na islândia. que nem só de sonhos são feitos os dias, mas que eles existem de fato essencialmente para esboçar o futuro. se não cometem a proeza de acertar nos detalhes, podem ser ainda e sempre ricos em firulas, cartões postais enviados dos lugares mais distantes e das situações mais dignas de desenhos animados.

    eu, no meio de uma praia deserta, gritando “adeus!” a um navio que parte. eu, correndo numa praia deserta, dormindo numa praia deserta, bebendo água de coco o dia todo. eu, surfista… quanto tempo preciso para lembrar que quero ir à praia? ficaram presos nos desenhos animados? (os sonhos? as praias desertas?)

    eu, piloto de avião, desenhando num céu azul, caracóis. eu, subindo os alpes suíços, dando uma palestra a estrangeiros. eu, posando para uma capa de revista, dando entrevista sobre a minha banda de sucesso! nem só charlie brown pode possuir uma banda. aliás, charlie brown…

    muita lenha queimada nos dias da minha infância, uma quase infância-wannabe, depois destes tempos de vida em apartamentos e o fim dos sítios-refúgio. banho de rio sempre foi uma referência, mas competitividade não. me ensinaram a ser feliz, mas o caminho seria algo a descobrir sozinha.

    o cheiro de lenha me acompanha até hoje, está no lugar-home do conforto assim como o céu estrelado. depois, os telefonemas de voz sobre ip ninguém poderia ousar prever, talvez nem uma questão de achar extraordinária a situação, mas… nem só de distância vivo, ainda mais aquela construída.

    olhares oblíquos para além-horizonte! peixes nadando em voltas, fazendo espuma e sons bonitos na água. eu, sentada na areia, fitando a lua nascente.

  • re-floresta #1: apartamento

    recuperar as folhinhas. sacrificar o pranto, veneno, que turvou tantas tardes esses tempos. o manjericão morreu aqui em casa. signo de abandono, de sol, de infestação de bichos. muitos incompreensíveis, mas dentre eles há abelhas, só hoje foram quatro a visitar a cozinha. e olha que recém-limpa. fascinaram-se pelo mel. há muito compreendi que mel é de fato um roubo de abelhas, o seu mel, o seu leite das crianças. mas ainda acho curioso que me apareçam tantas abelhas em um apartamento, de sopetão, na cozinha.

    zumbiram no meu ouvido, eu lavava louça. a abelha me rodeou, observou em volta no seu desefreado voo, incompreensível. alegria da abelha quando puxei uma fatia de melancia da geladeira, parti, deixei na pia. um pedaço meu, um dela. mamou alegríssima. e logo voltou para o mel, acompanhada das amigas.

    amanhã se fará uma meditação em prol dos bichos pequeninos que habitam uma horta próxima, urbana. alegria horta, tristeza horta, amores horta, comunidade. força da comunidade e dos bichos pequeninos. libélulas, joaninhas, grilos e muitos outros que sim, se afetam com o veneno espalhado pelo ar que busca combater os mosquitos. onde há diversidade há vida. se acontece uma disfunção ou doença – a doença do mosquito – é porque há desequilíbrio. sempre entendo que a natureza está querendo nos dizer alguma coisa, com essas disfunções.

    disfunção aqui em casa. mas de novo também um olhar, e esse viés incompreensível, que direciono a lacraias, traças, cupins: pragas urbanas. deslocadas totalmente de sua função, infestantes, sem predadores. na abstração do apartamento. cidade como abstração completa, mas disfuncional, distante de fundamento.

    a questão de estar em lugares não se resolve, acompanha: tudo um ponto no meio do fluxo. aqui encontrei casa, aqui construí lugar. aqui teço relações em volta, ainda que muitas das atividades, em concentro e imaginação, estão verdadeiramente dentro. dentro de um espaço qualquer e muito próprio que não é esse das ruas, sequer do apartamento. não tem a ver com esse ventilador que me torna possível – via corrente elétrica – uma tarde de sol encapsulada nesse empilhamento, na solar, desértica e vasta são paulo.

    conhecer a vastidão do solo: ainda há muito a explorar. muito me diz que está nas margens uma resiliência que não se vê nos acentramentos, uma alegria de que pouco se fala. um lugar assimétrico, forte, longe dos postais.

    a incompreender postais que se compõem de vale do anhangabaú, teatro municipal, ruas, viadutos, pontes. je m’en fous para as grandes construções. há muita vida em volta, mas ela não encontra alimento. se espalha em ruídos e fluidos que não escoam.

    os postais da cidade de onde vim tampouco me comunicam. acabam por ser construções, que paisagens. formam paisagens anedotas completamentes construídas, idealizadas, extraordinariamente caras, com legendas múltiplas para quem vem de fora. de novo um lugar é muitos, uma cidade. rio pra mim cidade turva que só, de caos e afetos, mal resolvidos, presos em engarrafamento.

    um acolhimento em torno de si, do benfazejo sustento, é necessário para validar uma inscrição – construção do teto que se faz em subjetivo e muito concreto. casa, abstração, escritura e fluxo de tempo.

    faz tanto tempo que não vejo o sol, de dentro.

  • 2022 (profanado)

    marte entrou em gêmeos
    no dia do meu aniversário

    minha lua, meio do céu, kiron
    teu ascendente

    agora mercúrio, almuten figuris
    no meu mapa,

    retrograda
    do teu mercúrio ao meu

    que dirão estas vozes
    ou este silêncio

    da libra ao virgo
    da beleza à especificidade

    da balança ao detalhe

    irritado, diz alice
    eu reconheço

    há certo gozo do intelecto
    convite para uma fala dançante

    gorjeio gracioso
    verborrágico

    e quando isso acontece
    é bom sinal

    instiga, reverbera

    a vênus, aliás
    também virgo

    é porque as vênus e es mercúrios

    andam juntes
    nos nossos mapas

    em diferentes casas

    e ainda mercúrio
    volta a ficar direto

    no dia do teu
    aniversário

    mesmo dia das eleições
    aquele dia

    que é lembrado
    desde o reveillon

    vibrando
    uma virada

    que nos faça pulsar
    vida

    e já sei, sabemos
    como tantos indícios trazem

    uma conciliação
    algo de novo

    não sei se de libra
    ou de marte

    se urano
    ou a lua

    acho que sim,
    sagitário

    como estava
    no dia de sem palavras

    quando cedo vitória disse,
    no teatro,

    algo sobre o amor
    bem bonito, perco os detalhes

    mas lembro
    e falo

    do dedo no cu
    as pernas abertas

    a bota

    tomar no cu
    você precisa

    eu disse em verbo profanado

    é real
    sentir na pele

    deixar entrar

    ;

    naquele dia
    da entrada de marte em gêmeos

    respirei do estômago revolto,
    de novo,

    meu dia, reencontro
    sabe lá o que seria

    um show, uma névoa
    uma cortina estilhaçada

    um campo aberto de ideias
    disse tudo ali

    precisava

    como pôr o corpo em riste
    de novo

    inventar outra maneira de
    estar perto

    sem esforço
    sem desalento

    reescrever o encontro

    somente estar inteiro

  • olhos caídos em dezembro

    uma festa que não deu certo. um desejo contido. sufocado entre quatro paredes.

    duas imagens:

    (1) um quadro triangular, em 4:3, dentro dele uma escada velha de madeira, à esquerda. ao fundo, uma parede desgastada pelo tempo.

    (2) menina vai ao banheiro e ouve uma senhora falar. sai da cabine e continua a ouvir, ela fala de estrelas e lugares perdidos. e completa dizendo que os jovens tendem a confundir fantasia e realidade, o que pode ser perigoso e a preocupa. finaliza com uma satisfação: admira o trabalho dos jovens, e é tudo graças à tecnologia. À TECNOLOGIA.

    **

    o tempo me pede para escrever sobre o tempo que me consome e o tempo vasto que se perdeu nas memórias e que se sente na música que faz parar o tempo e bailar em voltas em saias que se confundem com meias que se confundem com beijos na boca. o tempo futuro é o que eu não sei mas os livros todos eles especulam, eles falam de crenças perdidas e espaçonaves, de andróides e mentes fora do corpo, os anos oitenta foram tanto. só suprimiria todos aqueles exageros banhados em laquê e centropeitos e mesmo alguns sintetizadores.

    o tempo em que durmo é que é passado em bocados, horas não sentidas, sussuros, cafunés-em-mim-mesma. acordo de lentes – que é pra inaugurar estas novas – e logo percebo; o quanto em vão, quantas vontades, e atropelos.

    resolução de fim de ano dá nisso, eu não ia fazer uma. eu precisava discorrer sobre o tempo e seria tão bom falar desse farfalhar das árvores daqui do bairro ainda que com o sol TÃO forte; do canto das cigarras não só ao entardecer mas várias vezes por dia. tem som de silêncio.

    falar sobre a aceleração neste fim de ano que é tão acelerado; na pressa se perde o sentido, na pressa as coisas vão caindo pelo caminho. dezembro cheira a nada, eu insisto mas não consigo, só tem som de cigarras porque eu ignoro os carros agitados e as compras intensas. por toda a volta.

    caio no mar. dou meia volta.

  • rapidinha

    inventário na sua boca
    com cheiro de carnaval

  • arguto

    estou com uma vontade enorme de plantar verduras, legumes. os nervos da minha carne já não se aguentam mais: o supermercado é para os fracos. não me alimenta, só faz empanturrar as populações de simulacros enlatados e enfileirados.

    virei bode. prevejo lunações fora de fase, patadas, amortizações sem preço e carinhos feitos ao ar e ao sol.

    passei a andar nua pela cidade, quer me deixassem, quer não. o segredo foi só usar uma camada de tecido sobre a pele, ou vegetação: enquanto me pensam vestida, está tudo tranquilo.

    o disfarce deve valer também para os assimétricos todos, todos os vizinhos. se pudermos andar todos nus, será que erradicaremos a fumaça dos carros? tanto tecido e músculos que compõem as minhas pernas. sei andar, ei! não preciso de rodas. muito menos combustões.

    sem dúvida, temos as ligaduras e obtusas, aquelas que se sufocamos se tornam mais. acirradas disputas internas pelo que quer que seja. furacões, rotineiras.

    não respiro e não largo mão. aqui na cidade vigora a lei do astuto – o que não quer dizer rapidez, mas estratégia.

    a vida só é possível à medida em que se revê lágrimas e se coloca pequenos solos de feijão e acordeões comendo soltos à torre e sonhos, só assim. ou o instrumento que preferir. os grãos, em bando, irão nutrir as espécies com um enfestado repertório de anedotas fortuitas sobre suas origens e trajetos, alegrando de gracejos todo o grupo que se reunir.

    alrededor. os tracejos do meu asfalto irão reverberar além e afora, onde se está. os lugares mundo todos feitos e completos de si, coletados ao passo e ao prumo, a subir montanhas.

    onde se está. culturas de bactérias benignas, compostagem, zelos, colaborações entremeios e entrevestes – com toda a sutura de solfejos e o que mais pestanejar. não encontro os amigos em abismos, mas no prumo do barco, a caminho do que invento. tempo lento, dizemos, a toda prova. ritmado.

    um lugar de sonhos, de vastos abraços e tempo ordenado, mas alheio a qualquer forma de voz que venha a sobrepor todo o peso carregado ao longo dos anos, nas costas: a voz haverá de emergir de nós mesmos, entrepostos entre asfaltos e devaneios com o mar – mítico mar, dos suores e dívidas, resoluções e labutas abaixo do sol, parecendo funcionar.