como se reinventa um corpo
(um desejo)
a olhar por ele mesmo
a se ver
campo ampliado lente macro
composição inteira
de pé
sustento, de pé
altura, de pé
postura, de pé
abdômen, de pé
(bem fincados, peso distribuído)
peito aberto
olhar
como se reinventa um corpo
(um desejo)
a olhar por ele mesmo
a se ver
campo ampliado lente macro
composição inteira
de pé
sustento, de pé
altura, de pé
postura, de pé
abdômen, de pé
(bem fincados, peso distribuído)
peito aberto
olhar
que tenha corpo –
e saiba se abrir
sem medos de feridas.
há tanto! no meio
emaranhado
vir
sua linda. buh!
1_semmedo
compreender o sossego por entre as curvas. sim, é essa a tarefa suprema a realizar.
como proceder? digo, conheço uma penca de procedimentos, talvez não aplicáveis a todas as instâncias. primeiro tem de compreender a fissura, olhar entre as bordas dos cadarços e cada modo de lidar com os ambientes. não se faz a novela como coisa pronta, tem de aprender a ver.
pois que lide com o processo, seus não-lugares e trejeitos incômodos.
talvez, o único jeito voraz de superar os acasos, aqueles que se convertem em desgostos, sem rapidez (como hão de admitir os jovens, vez ou outra).
é preciso um plano. talvez?
pontapé para o infinito, atadura. semmãos, semmedo, mmordedura. coragem, aquilo de que tanto falam os clássicos romanescos sem era, que se sobrepõem a uma realidade turva, demasiado complexa para nossos contos de fada caninos. anacronismos de infância, maus adestramentos. depois de um tempo, os embalsama todos e transforma em leituras de maniqueísmos diversos, notícias sem profusão nem densidade, as quais só se lê às partes. reitera discursos ou cria coisa alguma, mas segue algum rumo estrito que supostamente se concretiza. ou não, engole a rebelião e bate ponto no escritório, todos os dias, eis o método que seu pai lhe ensinou.
o herói não compreende seus trejeitos, seu namorado no masculino como não poderia imaginar. e depois a família toda vê a foto, porque não a imaginava tão visível, todas as membranas da vida se sobrepondo, como cadáveres. é tudo tão transparente que dói, no semmesmo da estória. compõe de palavras e imagens uma contação sem fim de protestos, amores e títulos de algozes. todos estudantes e ansiosos por se formar.
as celebrações que relegas ao outono
ao inverno
às hortas vorazes criaturas antigas
do condomínio
do chão
cultivo de meias-portas
altivos, saltitantes
embriagados envoltos em colagens
turvas, imensidões
povoamentos silvestres
familiares mezaninos
cabides, abraços
aqueles meninos já grandes
as suas voltas
e botas, e cabelos encaracolados
já não colhem tão sossegos como
ouvi, uma vez, estive lá
ficção
viagem fantástica conto de pandemia
brechas
saudosas
já não sei se
há caminho
se quero inventar
buracos
no chão
que não há
entretanto está
aqui, diante de mim
fundamento, ligadura:
um espectro
mistérios curados a pinça, com cuidados mil, despedaçados em lágrimas contra a parede em um balneário distante. gostaria de te beijar, gostaria de te contar estórias sobre pessoas felizes que deram certo, sobre brincadeiras: sonhos de adulto. ambas parecemos crianças, e a busca das coisas que se quer mas não se sabe ao certo.
viver a vida com uma intensidade dosada, de criações para os futuros incertos e corações sortidos tirados em um pacote de balas. sai-se pela noite costurando buracos dos outros, bebendo até transbordar, não cai no chão porque mamãe ensinou bons modos. entre os mundos quietinhos de cautelas cuidadosas e de desejos previsíveis e as ruas sujas, imundas e cheias de incertezas. tem aquelas bonitezas que se acha pelos lugares improváveis, pelos óbvios corações próximos demais pra se acreditar.
hoje eu acordei várias vezes; ontem eu acordei de uma só e parecia ter dormido por milênios. entretanto, a náusea e a sensação de perda permaneceram inalteradas.
tenho relutado até em escrever, concentro-me em viver e só cuspi a história uma única vez, não foi bonito, foi coisa de gente chapada, bêbada e velha desesperançada com a vida. da outra vez tentei contar, mas falei mais de passados que de presentes.
como parênteses: o português mudou em várias regras, e eu não me conformo em escrever ideia sem acento. parece que falta algo, e é quase como em inglês. ideas for life. slogan de campanha de uma coisa qualquer – porque no fim as campanhas são todas quaisquer.
medos de ideias nocivas contra mim. contra ti nunca quis fazer absolutamente nada de ruim, tornou-se potente agressão quando você disse, quando eu mais-que-verbalizei, domestiquei uma coisa intensa. pois é, minha querida, o mundo é assim ou é a forma como eu o vejo. e uma das coisas que eu busco, bem, é um certo tipo de compreensão.
a dor se contorce aqui dentro, mas tem tanta cara de personagem indecisa que eu me esfacelo em solidão. fecharia-me nela, caso não tivesse que fazer coisas como trabalhar, estudar e viver. a vida no fim das contas é sempre essa soma de migalhas que vou catando pelo caminho, talvez enquanto não lançar o corpo todo aos riscos e às balas.
tive tanta vontade de fazer uma dessas coisas que chamam de decadente, de gente perdida, tais como morar na rua ou virar stripper de boate no centro. mas as ruas são sujas demais e cheiram a derrota, e as noites têm gente feia e tosca em demasia. procurando coisas que não se pode nem pronunuciar, talvez caso as pessoas fossem todas belas e cheirosas (como em shortbus).
meus medos viram estórias, os resultados de concursos estão como esperados, talvez aos vinte e quatro não se possa mais querer tantas coisas ao mesmo tempo. é hora de escolher entre a academia e as artes, negar a comunicação de vez ou tentar absorvê-la sem tantas adversidades. aversão eu tenho dos infelizes, mas é fato que tenho contado muitos passados e já começo a lamentar os futuros. porque as criações para a vida de crianças de 10 e 18 anos são diferentes daquelas dos quase adultos de vinte e quatro, mesmo com cara de 22, é uma criança que já precisa estar lá, em cima do palco, mostrando a que veio e mantendo a pose.
minhas estórias por hora estão contorcidas, levemente enfermas e escondendo a pimenta por debaixo dos lençóis. caso de meninas bonitas, ideias para não sei quando: muitos desejos, como tem sido.
posição fetal agitando
um punho um aceno um abraço
garante que
ao menos a gente tenha junto
alguma voz
um novelo
e seu bagaço
encontro da família
com o asfalto,
a rua dura
as legendas dessa cama
contam com duas ou três arestas
não doces, não tem vez
meu corpo
os mosquitos
o chão
o saliente zumbido
a tua voz
no celular, àquela altura
da manhã enviesada
no rasgo, no sustento
do que viria a ser
e do que nunca foi
e que provavelmente
encerraríamos aqui mesmo
o novelo o novelo absinto
reanimo
os bichos
pensar meu nome escrito em
ar condicionado
terno emplumado, enxuto, asseado
sapatos de verniz ou botas
paetês
(a um pertencimento)
azul
verde
prateado
mata úmida
bem chegada
és tu mais uma vez
sem porquê
de corpo devaneado
mal inventado
a saber se
encontra
patrocínio
age à mentira relatada
(sem café)
(com água)
pero sem aquela
poça
alagada
dos dias
chorados
a conta vencida
ansiedade
concreto é ver
alguns absurdos
darem certo
em brilho vermelho
lá fora
uns amigos reunidos
em volta
em torno
de
fogueira
constelação
aquilo que age
sem aqueles mesmos
vícios
donde se ouve
ecos
sinos
conjunção
a roupa é a roupa é
a roupa mesma
quis estudar
teatro
mímica
butô
cortes rasgados
cenografia
cosmologia
lugares longíquos
montanhas
seres viventes
sim
sempre muito vivas
e imponentes
a lembrar aos sóis
que habitam em nós
que tamanho temos
que somos maioria
que somos magníficas
que não existe caminhar só
nem casa grande demais
os buracos
hão de ser preenchidos
ou habitam
novas memórias
não se deixam trancar nunca mais
não se deixam tolhir nunca mais
completam
se cumprem
permanecem abertos
somos maioria
somos (subjetivamente) imunes
estamos vivas
como as árvores
e as montanhas
que se engendram umas nas outras
e criam raízes subterrâneas
nunca rasgam
nunca hão de cair
são selvas
indomesticáveis
atores mesmos são eles gestos. vozes que não se misturam, vazios intelectos, atos que vão seguindo pontos, dançando pontos, se perdem.
escandalosa miragem permanece forte na rua. quer invadir atos, vontades, mas só atinge a coisa mesma, sem nexo. é raso. ricocheteia nos prédios, nas pessoas, não vaza em ninguém.
conversa de bar que escorre e praticamente não existe. só imagens, sorrisos, rumos difusos e repetições. às vezes música, som alto vindo das vozes, subterrâneo de atividades sonoras, efeitos químicos. nada mais que urgência, não é importante.
converso no lugar, me junto, perco o dito das coisas e enfim faz sentido! entre perambular pelos escambos, pelas brechas, acessos à cultura e à imagem por um pouquinho de escape. mundos pequenos que apresentam eixos universos.
do verbo que ainda não existe, acontece.
situação simples que inverte, alimento, torna energia o fluxo. rodopia, cumpre, faz girar.
quase sem nada, meio sem nada, por isso lá.
vox ~ partituras de verbos y danças / por inês nin
*
brilho
clã
corro
respiro
ruído
sustento
vento
acaso acesso afeto amorzinho azuis ação caminho campo carta casa casa comum celeste chão cidade coletivo corpo cotidiano dança desenho encontro epílogo floresta fogo gesto img linhas lugar mato movimento multidão percurso poesia política prosa ra- ritmo rua sul texto trabalho txt versaletes verso viagem vida
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