sinto muito, mas eu tenho essa memória
e é a minha parte preferida
eu não tenho vontade de dedicar a você pela recusa,
(e guardo meu carinho nos sonhos, até sumir, mesmo que leve tempo)
sinto muito, mas eu tenho essa memória
e é a minha parte preferida
eu não tenho vontade de dedicar a você pela recusa,
(e guardo meu carinho nos sonhos, até sumir, mesmo que leve tempo)
concluí que não sonhei com você, eu sonhei com a saudade.
eu me despedia de uma casa vazia
à beira do mar
o canário se aproxima
não é hora de se subjugar
tecer constelagens de pequenas falsas mordagens
firula, que nem algoz
diria que não
diriam que não tantas coisas
furtivas vozes que se refraseiam
e parafraseiam cristais
pardais sem nome
pássaros migrantes sem lugar sem hora
capaz
foste uma vez mudar
de capa, de penas, de anzóis
e casacos de chuva, para
dias secos que se seguem sem vez
aridez de tantos cantos
de danças que revigoram
caminhos
abraçam amigos fazem chorar
cantam vestígios de toda hora
prontidão
rastros cantos quebrados asfaltos
mortes pelas vertigens dos estados ali
amigos, de novo, presenciam
alguns
solfejos dos sem caminho
das fugas premeditadas
daqueles que guardam dinheiro há dois ou três anos
providências
barcos, tenho pensado em barcos
mais que aviões
que afundam, barcos, asas, pássaros
e modos de transporte menos lembrados
ainda que catracas, consulados, gente que irá te julgar
em tempos em que violam países
sempre violados, a história diz
tão frequentes as violações
que se pensar nisso não move uma pena
uma linha sequer
e tantas linhas se tecerão
pelos encontros as danças
nunca parar de dançar
nunca pestanejar, ainda que
inversões caminhos entremeâncias ainda sonhos
ainda diversos lugares viajo entrementes
danças, volto, rememoro, faço espiralar
nunca deixar de dançar nem os encontros
lá, a teoria, as ideias tão antepassadas
e que no entanto retornam
perduram, te atiçam em voz e são os universos que colidem
os tanto mais a incentivar
lance curioso
atrito produtivo
vontade
vaz
pensar meu nome escrito em
ar condicionado
terno emplumado, enxuto, asseado
sapatos de verniz ou botas
paetês
(a um pertencimento)
azul
verde
prateado
mata úmida
bem chegada
és tu mais uma vez
sem porquê
de corpo devaneado
mal inventado
a saber se
encontra
patrocínio
age à mentira relatada
(sem café)
(com água)
pero sem aquela
poça
alagada
dos dias
chorados
a conta vencida
ansiedade
concreto é ver
alguns absurdos
darem certo
em brilho vermelho
lá fora
uns amigos reunidos
em volta
em torno
de
fogueira
constelação
aquilo que age
sem aqueles mesmos
vícios
donde se ouve
ecos
sinos
conjunção
a roupa é a roupa é
a roupa mesma
quis estudar
teatro
mímica
butô
cortes rasgados
cenografia
cosmologia
lugares longíquos
montanhas
seres viventes
sim
sempre muito vivas
e imponentes
a lembrar aos sóis
que habitam em nós
que tamanho temos
que somos maioria
que somos magníficas
que não existe caminhar só
nem casa grande demais
os buracos
hão de ser preenchidos
ou habitam
novas memórias
não se deixam trancar nunca mais
não se deixam tolhir nunca mais
completam
se cumprem
permanecem abertos
somos maioria
somos (subjetivamente) imunes
estamos vivas
como as árvores
e as montanhas
que se engendram umas nas outras
e criam raízes subterrâneas
nunca rasgam
nunca hão de cair
são selvas
indomesticáveis
as máscaras se formam no infinito. não têm desenvoltura, são de uma dureza que só. solitárias florestas de nós mesmos; pequenas prisões que fazem abraços, corroem laços, voltam para tecer de novo. pequenos rumos de umas coisas assim tão belas, tão pequeninas, florzinhas a se espalhar no chão e descer ladeiras, e então tudo desmorona. só que nós, aqueles vincos distantes, estaremos já em outro chão, um chão de árvores, um chão sem fundo nem querelas.
será de abismos composta a história, será de acasos fortuitos que não se sabem abraços, pois terão de aprender tudo de novo. terão de compor as estruturas, aprender a erguer tijolos, a revirar o solo e também a respeitar os seus tempos, os seus enlaces, as suas curvas. e não são simples as curvas, elas são no mínimo do tipo ‘cotovelo’, quer dizer, no mínimo muito inclinadas. milhões de dobrinhas a desvendar a cada movimento.
e no entanto não existe cansaço, não será sem braços nem ação. se nos cansamos, iremos nos refazer de novo, após uma noite de canto e muitos pés que ritmicamente se revolvem em movimentos fluidos e circulares. sim, círculos e circuitos promovem regeneração de estruturas, ainda que elas mesmas circulares, sempre em curvas correndo em espirais, não apreensíveis posto que se movem e estão sempre a seguir.
abraços, de que será feita a estrutura. gêneros, curvas, enlaces. ainda que turvas as memórias, ainda que retorcido o movimento, o contexto geral e toda sua dureza de cimento. cinismo aprendemos nas infâncias, o be-a-bá do mundo, para depois revolver-nos em desconstruções, risadas, todos aqueles absurdos que irão compreender mínimos aspectos e enfim a noção de que não há todo a ser visto, senão de outro modo. todos os nós compreendidos em estilhaço, e sim estilhaço, mas ainda curvas, curvas nos salvarão.
e só nós mesmos, por entre as árvores para inventar costuras e desmembrar as cinzas, todas elas. em múltiplas partes e fragmentos, cientes de seus limites e asfaltos, ainda tecendo curvas sem chão.
a rota de colisão traçada pouco a pouco revela uma chance inacreditável.
no ar se encontra, com os pés bem fincados no chão, observa: necessidade de agir.
a boa ação configura um ápice, o momento máximo de entrega e não-mais-questionamentos.
restam o pó, as árvores e alguns objetos cortantes.
cá embaixo um caracol enauseado rodeia, rodeia e não encontra um final feliz.
seria um bug de software, um emaranhado de situações?
pensa em dormir, dorme.
a boa ação foi subordinada a uma idéia, duas, por fim já não era mais dela: pretendia pertencer ao mundo, mas este é um conceito ultrapassado.
pegar com o dedo aquilo que desanima. é uma coisa, palpável, que oscila entre o estômago e o pescoço. beira a garganta, raramente sai a público. uma emoção convulsiva, evasiva, inerte: presta pra nada, essa torrência.
desanimar o desânimo. chegamos nesse ponto. nunca estivemos em outro lugar.
esperar as horas do sossego
lapidar o canto,
não pensar no desatino
não secar as lágrimas
dançar rodopiar
em zelo
aquece
sou eu mesmo que
canto
sou eu mesmo que
me envolvo num abraço
na cama
o suscinto: delírio
amargo ardor de antes
já foi,
esquece
caminha
vai embora
(já fui)
nessa composição celeste
somos só nós mesmos a lançar
num rasgo num só bocejo num vulto
rápido morcego eu sim
eu vim
cá estamos
rindo
vox ~ partituras de verbos y danças / por inês nin
*
brilho
clã
corro
respiro
ruído
sustento
vento
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