• i

    atores mesmos são eles gestos. vozes que não se misturam, vazios intelectos, atos que vão seguindo pontos, dançando pontos, se perdem.

    escandalosa miragem permanece forte na rua. quer invadir atos, vontades, mas só atinge a coisa mesma, sem nexo. é raso. ricocheteia nos prédios, nas pessoas, não vaza em ninguém.

    conversa de bar que escorre e praticamente não existe. só imagens, sorrisos, rumos difusos e repetições. às vezes música, som alto vindo das vozes, subterrâneo de atividades sonoras, efeitos químicos. nada mais que urgência, não é importante.

    converso no lugar, me junto, perco o dito das coisas e enfim faz sentido! entre perambular pelos escambos, pelas brechas, acessos à cultura e à imagem por um pouquinho de escape. mundos pequenos que apresentam eixos universos.

    do verbo que ainda não existe, acontece.

    situação simples que inverte, alimento, torna energia o fluxo. rodopia, cumpre, faz girar.

    quase sem nada, meio sem nada, por isso lá.

  • kinomichi (linhas)

    volante
    volátil

    kinomichi_1

    kinomichi_2

    kinomichi_3

    kinomichi_4

    kinomichi_5

    kinomichi_6

    kinomichi_7

    kinomichi_8

    kinomichi_9

    kinomichi_10

    kinomichi_11

  • olhos caídos em dezembro

    uma festa que não deu certo. um desejo contido. sufocado entre quatro paredes.

    duas imagens:

    (1) um quadro triangular, em 4:3, dentro dele uma escada velha de madeira, à esquerda. ao fundo, uma parede desgastada pelo tempo.

    (2) menina vai ao banheiro e ouve uma senhora falar. sai da cabine e continua a ouvir, ela fala de estrelas e lugares perdidos. e completa dizendo que os jovens tendem a confundir fantasia e realidade, o que pode ser perigoso e a preocupa. finaliza com uma satisfação: admira o trabalho dos jovens, e é tudo graças à tecnologia. À TECNOLOGIA.

    **

    o tempo me pede para escrever sobre o tempo que me consome e o tempo vasto que se perdeu nas memórias e que se sente na música que faz parar o tempo e bailar em voltas em saias que se confundem com meias que se confundem com beijos na boca. o tempo futuro é o que eu não sei mas os livros todos eles especulam, eles falam de crenças perdidas e espaçonaves, de andróides e mentes fora do corpo, os anos oitenta foram tanto. só suprimiria todos aqueles exageros banhados em laquê e centropeitos e mesmo alguns sintetizadores.

    o tempo em que durmo é que é passado em bocados, horas não sentidas, sussuros, cafunés-em-mim-mesma. acordo de lentes – que é pra inaugurar estas novas – e logo percebo; o quanto em vão, quantas vontades, e atropelos.

    resolução de fim de ano dá nisso, eu não ia fazer uma. eu precisava discorrer sobre o tempo e seria tão bom falar desse farfalhar das árvores daqui do bairro ainda que com o sol TÃO forte; do canto das cigarras não só ao entardecer mas várias vezes por dia. tem som de silêncio.

    falar sobre a aceleração neste fim de ano que é tão acelerado; na pressa se perde o sentido, na pressa as coisas vão caindo pelo caminho. dezembro cheira a nada, eu insisto mas não consigo, só tem som de cigarras porque eu ignoro os carros agitados e as compras intensas. por toda a volta.

    caio no mar. dou meia volta.

  • trajeto

    às vezes eu tenho a
    estranha vontade de
    dormir num ônibus
    não que seja confortável
    não que não haja ruído

    é o simples gesto de
    estar em movimento
    ir de um lugar ao outro
    como se com isso –
    transpondo cidades –
    algo pudesse
    transmutar

    constelação vista pela estrada
    ruído de máquinas, parada
    assunto de duas cadeiras à frente
    música
    não gosto, me vejo procurando caronas
    mas quando dizem que – vamos conversar
    agradeço meu direito de permanecer calada
    embarco num ônibus, adormeço entrecostada
    sonhando abruptamente com locais
    um pouco menos vagos

    situações menos gastas
    encontros calorosos e afáveis
    conforto de saudades
    duram dois dias, em média
    no restante temos que trabalhar
    e se algo foge à regra
    posto que situação: viagem
    passeio passeio gana
    perco-me sutilmente
    entre apreços
    e paragens

    o core pede: luta
    concentração faremos
    em que localidade
    em que zelo encontre pela estrada
    uma casa, a que custos
    de frequência e lentidão
    costumeiramente
    saudáveis

  • cronos

    agora os dias se estendem por além das barreiras. sobrepõem-se as datas, precisam existir custe o que for. hoje é quatorze de fevereiro, estou em niterói e não tá fazendo sentido tem meses, estou vivo e a questão do sentido se perde tem anos. vou escrever. não mais deixar em branco.

    uma foto de perfil:

    2017, estava triste
    2023, estava triste
    2015, estava feliz.

    2021, mudei tanto de casa q fui pro lugar errado
    2018, voltei a acreditar
    2018, por pouco não morri
    2020, fui embora joguei tudo fora
    2024, estou vivo e há de haver caminho.

    2019, fluxo, fluidez e muito medo
    2019, copo derramado
    2019, fúria alegre! movimento, luz, foco

    2005, alegria agridoce começamos
    2006, o mundo
    2007, vivas (triste também)
    2011, uma aventura, doeu
    2011, começa a saga de casa.

  • expedito

    considera-se uma obra póstuma 

    pontapé para o infinito, luminescência. construção de mercado velho feito afoita velha vontade, eu começo, eu ando em intenção e invento circunferências. já estão ditas, já estão escritas com todas as palavras do vocabulário corrente, em línguas misturadas que se apropriam umas às outras, como indeléveis imagens.

    um começo é uma estória, um porque em manifestação interna sem que responda à pergunta. eu recortei, ampliei e repaginei o conto, remixtures da música, misticismos dos outros e mais uma dúzia de ovos. não precisamos de justificativas, mas de ações. o ato de alguma forma antecede a teoria, pode ser versão da própria, cópia involutária de outrem, pastiche calado que subscreve. por mais que procuremos entender, não mergulharemos em todos os universos, não será possível dar conta do todo; por isso a unidade, o sujeito parcial que não se contém em querer criar suas versões dos mundos em ambientes pelos quais transita.

    porco-espinho mede universos, conhece intelectos e tem sua forma mutável de transeunte. pessoa culta que sabe cotar bem o embaralho das coisas, curte filme francês e vestes de seu avô que sequer conheceu em vida. “estava cheio de tecnologia”, um recém-amigo disse uma vez durante o trajeto. curiosíssima observação, senso comum das palavras impressas no jornal. dizem tanto desses parques de diversões contemporâneos ao ponto de nem parar pra pensar o que de fato se observa. adentrasse sem teoria prévia, o que é pouco provável, diria estar numa casa de fliperama dos novos tempos, ou num parque de televisões: estruturas expostas da máquina e outros experimentos com a luz industrial mágica.

  • biblio

    eu sou uma biblioteca. ainda que dispersa, fogo inquieto, terra mutável, devaneio. meu tino é enviesar, duvidar de tudo, desmontar — depois voltar, olhando, reinventando a partir do que viu.

    esse corpo já foi a muitos lugares. muitos mesmo, menos do que gostaria, mas sim. em qualquer lugar em que pouso me ponho a andar. é maneira de descoberta. mapear os cantos, ouvir, ouvir, pedalar, cruzar fronteiras, fazer conexões. pessoas, trânsitos. para cada espécime uma língua, para cada caldo seu zelo. vir a encontro. misturam-se todos aqui. sem titubeios, hay de dançar.

    nas montanhas deste corpo habitaram filmes, invenções, conexões celestes, códigos abertos em respiração. hay de habitar o gesto, o movimento — dar-se a encontro, abrir — e também compor, saber ouvir a música. são nossas vozes, nossos dedos. num intervalo de respiração nos damos conta. está lá. no mundo, no ar. aqui. cria imagem com teus zelos. alucinação. eu rio, é assim, é assim que começa.

  • dos mares calejar

    gesticulo sem camisa. começo pontos sem nexo, conversas de sobremontes.

    meu corpo está suspenso, como num cabide. ou é a camisa. ou é o braço. são os ombros. é o coração.

    respiro bruto. engasto, felino, a toda hora e faz. respira de novo. abrupto. engole saliva e então cospe palavra. infame. de novo. agora suave. respira de novo. engoliu. as palavras. atropelou. mais uma vez. respira. deixa fluir na barriga. assim. não, não se ensina isso. fica algo preso no canto esquerdo, e quando põe o dedo assim dói. ar. será. dor de absurdos. dor de sustento. de sopetão. ar. respira. dói. corrompe. não. dói. ar. respira. assim

    viaja a porto calejo de modo a renovar as botas: dando um banho de mar. só que era ressaca. as gaivotas voavam alto, pra não se molhar. um ou outro surfista corajoso considerava arriscar um caminho, mas todo mundo ficava era a olhar e perceber a fúria das ondas, tal desalento.

    sumiram as botas. o mar as engoliu, obviamente.

    com toda certeza não voltariam. pudesse ter levado umas cartas antigas, também, o gesto equivaleria a qualquer ritual de cura. uma certeza. quem sabe iriam retornar fragmentos para as mãos de alguém, outra pessoa, e quanto a isso não me poria a duvidar de que a pessoa me conheceria, tamanha é a extensão dos asfaltos do balneário.

    o balneário dos afetos agora é só abraço, abraço e multidão, sem os conflitos que outrora iriam me abraçar.

    parecem ter só sobrado alguns espectros e gestos cheios de memória com o que lidar. por isso, afeto. por alguns outros eventos, inclusive fora dali, veio essa do cabide. o cabide a me segurar.

    outra imagem seria a de um avião. ou algo a planar. como se não estivesse aterrisada completamente neste plano. jetlag.

  • _______

    eu estou aqui fazendo essa tarefa difícil. ela, em sentido maior, nada tem a ver com você. mas, se alguma vez na vida você tem como ajudar uma pessoa, faça. sei lá, me parece uma práxis digna. se não tem um custo assim tão grande. algumas pessoas a praticam. eu procuro praticar. outros têm praticado, a contribuir para que os outros caminhem para a frente. se quais os motivos fazem um pé empacar, um pedaço de roupa ser fisgado por um arame farpado, ou o porquê de haverem arames farpados pelo caminho, maiores ou menores, isso interessa? podemos falar sobre isso, mas não parece que interessa. os motivos de cada pessoa podem ser lidos como participantes de um problema endêmico, histórico, circunstancial maior, e podem envolver isso de outros modos, ou não. de novo, se interessa, acho até que já verbalizei muito, soou em vão. é o em vão que incomoda. o intervalo entre uma fala e outra, uma certa negação esquisita, um pouco enviesada. em conjunto, se explica pouco pelos modos convencionais.

    os esforços não parecem findar. há uma estrutura que está a beira de, quase ao cabo de, mesmo que digam que poderia ter ido bem mais. que os motivos são vistos como firula, qualquer coisa por aí perdida num dia de trabalho. acontece. trajetórias distintas, caminhos, as pessoas têm planos, procuram, estudam, e o tempo corre corre. o aluguel vence todo mês. a gente vive numa sociedade em que pensar – e argumentar – é visto como algo a parte, algo que não cabe, ou cabe pouco, se deixa passar. o pé que não arreda do pensamento crítico e da pesquisa é mais conhecido das grandes vozes, dos ruídos de bar, dos acessos privilegiados, da reclamação cotidiana ou das vozes que se fazem grandes apagando outras, também. e dos homens. às mulheres cabe, sei lá, tentar.