• correria

    fui contar estrelas
    encontrei escombros
    da minha última jornada.

    corri para o quintal
    e gritei pro céu
    por que tamanha bobagem?

    daí recontei
    todas elas
    sem número exato
    nem firulas

    e não é que acabo as engolindo?

    escorregando pela minha garganta
    fanfarronas, esbeltas
    correm felizes
    pelas colinas vermelhas!

  • água

    a insistência no exílio como matéria infértil
    (não se exila no concreto; somente nas montanhas ou à beira do mar)

    porosidade

  • asfalto dança, revolvido e celeste

    do que seremos capazes. quando estivermos em residência. quando estivermos juntos. quando soubermos desatar os laços e não nos deixar contaminar pelas ruas. pelo ruído que envolve.

    encruzilhadas de encontros e um tanto de terra descascada, casa — muitos moraram aqui. nós estamos. um curto período de tempo, esses dias: vejo transição. pra mim transição, enfim transição, de polir arestas transição.

    transitoriedade. estamos. rio de janeiro se impõe transitório, quando cutuca suas terras abaixo, tantas camadas. seria não só o pó que entra pelas janelas ou o ruído alto de máquinas, às vezes acontece, como o samba. mas ele perdura. a serra elétrica é tão sabão quanto as suas meias, você não questiona elas. você não questiona a serra elétrica e se pensar nem os helicópteros (aviões sentimos muito por essas bandas), nem a furadeira você considera. quem escolheu esse ruído? haveria máquinas silenciosas?

    tenho preferido manivelas e pedais e reco-recos a qualquer custo para não ensurdecer qualquer vizinhança, seja da minha casa ou de quem for. e minha casa minha dívida, minha dúvida ou desejo ou de fato algo que não existe. não existem quase casas no sentido lar numa cidade como essa, em que se atravessa túneis subterrâneos e então todos viramos asfalto, aos poucos asfalto, que é para casar com toda a máfia das construtoras que nos assalta.

    tomados de assalto, abrupto, e no entanto leva anos. o balneário da tevê dos sonhos de tantos brasileiros e brasileiras, nesta ordem subalterna que tem tantas categorias pouco gentis e pouco dignas porque sim ordenaram, na terra onde se fez escravos, então refúgio de uns brancos europeus que então trouxeram armas e ainda matam nativos, hoje

    multidão, faremos e somos e construímos pontes entre as membranas que descolam e as camadas que vêm à superfície como fúria, furiosamente nos deixando atravessar por camadas que caem, pouco a pouco, todos os dias, furiosamente perfuradas por máquinas ruidosas que constroem túneis por onde passa todo tipo de concreto e rios que não são mais rios mas fétidos detritos disso que chamam saneamento básico, as pessoas.

    as pessoas se juntam, as pessoas colaboram. as pessoas pensam rua. as pessoas nunca serão uníssono, multidão não é sobre isso. aprendi muito sobre dissenso e distensão e uns saberes práticos de autonomia (urbana) durante ocupações de tempos e tempos, que de tempos em tempos ocorrem, e cruzamos com elas. são terreno de mistura e utopias postas à mesa, ações e abraços e conjuntas confusões e desfiladeiros de acasos fortuitos, dentre outros movimentos

    o que será todo esse concreto que nos envolve? serão os viadutos capazes de nos engolir? lembrarão os carros do que um dia foram, quando não havia motores? como era viver sem motores?

    percorro ruínas com uma bicicleta.

    relações com esforço, pernas. como meias, sabão: relações com esforço, braços. me yoga pela manhã, para assentar os músculos e não torturá-los demais. gradativamente. alcanço

    subir montanhas era uma intenção perspicaz e há muito alimentada nisso que chamam rio — tantas matas — complexa de pôr em prática assim como desejada, talvez por excesso de desejo, talvez pela clássica fatalidade dos dias e das noites (e as divisões dos tempos e do trabalho, nosso empecilho mais clássico, assim como as noitadas)

    florestas de noite ainda existem, mas não as adentramos na cidade (sobrevivência; prioridades)

    voaria lá nos altos dos montes e pernas fortes, pernas dormentes, pernas crescentes assim como a lua que agora nos assiste lá do alto, construindo lares acasos outros muito mais afáveis que quaisquer uns feitos em concreto

    são de matéria fluida os sonhos mais compridos e bonitos e velozes de saborear (é possível viver de matéria, maleável e componente fértil de outras casas, outras vozes, construção elementar de inventos e mundos, sim casas, habitações e cotidianos)

    e cotidianos velozes, meu bem, sabemos, temos demais. mas se pensar outro tipo de velocidade, aquela dos sonhos, em que se está aqui e depois em outro lugar, assim seguido, assim sobreposto, tempo-colagem, curva

    quis trabalhar com técnicas velhas de fotografia porque sim nostálgica, e também mercado de pulgas, o melhor das cidades, cheio das memórias dos nossos avós que não foram nossos, mas participaram de um sobremundo que nos atravessa, que salta desses lugares quase esquecidos e vem cá na nossa frente dizer que ainda existem (e em vivas cores, vivas vivas e pueris)

    de viagens pro estrangeiro também se enche o mercado de pulgas, a praça xv, e assim muitos mickeys povoam um imaginário infantil colonizado, que só três décadas depois começa a se dar conta inteiramente do que terá afinal sido tudo aquilo, todos aqueles bichos que não existiam nessas terras, todos uns referenciais meio estranhos, coloridinhos, colonizadinhos, branquinhos e muito pouco críticos, afinal

    (e de crítica seremos muitos, mas também respirar, respirar, que não seja esse pó que nos atravessa mas também a importância tão gigante de ser permeável, de não se afetar e assim criar ossos mais resistentes que possam sobreviver a tanta matéria revolvida dos solos, todos os passados remotos mais amendrontadores que sobem com tanta fúria à superfície e dançam

    dançar, vamos

    inesnin; casacomum

  • x

    queria escrever uma carta para alguém imaginário,
    pois tem sido muito difícil encontrar as pessoas nas multidões.

    criar espaço em bagunças espasmos,
    festas, amor estilhaçado
    em multidões, de novo
    emaranhados que acontecem
    e participo

    (nem sabe os meandros por onde passam, nessa vida, os abraços)

    observações
    de modos de vida,
    lixos e materiais
    comidas e animais,
    amores,
    abrigos,

    sobram uns desejos

  • travessia

    conheceu sem ser menina, visualizou sem ser mãe. conquistou aos poucos sem se tocar, perdeu aos poucos viajando em emoções.

    depois que o moço voltou da europa tinha mudado as suas impressões, as suas idéias antes tão condensadas deste mundo em ficção; ficava nu nas festinhas freqüentemente por pura exibição, libertinagem, diversão. o mundo fictício ficava aqui mesmo, centrado entre o mar e a lagoa, a alta burguesia e as práticas mundanas. nossa passagem nele consistia em somente devanear e confabular idéias confusas sobre afinal coisa nenhuma, pois nada efetivamente importava, os assuntos objetivos não eram de nossa condição.

    tínhamos vinte e muito poucos anos para superar a crise dos dezoito e ainda antes do fim da faculdade, a pós-graduação, a vida à frente mas principalmente a que aos poucos ficava para trás. todos os sonhos e liberdades caminhando em urgência inevitável para algo mais que sonhar pelados e bêbados com dias sem amanhã, com sexo e cinema.

    a música participava das nossas vidas também, sim: para uns mais que para outros, mas foi peça relevante em pequenas discussões babacas acerca de madonna ou blur, tradicional ou exótico, indie ou pop-rock. nada além, as bandas eram só dos meus ex-namorados. em ficção, eles, ainda mais.

    a moça chegava na cidade assim meio sem ser convidada, meio ela, meio não.

    encontrou o moço ali pelos trajes da vida, as tragédias do cotidiano, esbarrou na boate e foi logo beijando:

    na verdade eu não sei como foi, mas sei que se esbarraram e deu no que deu.

    ele, tantos poucos-anos-corridos depois veio perguntar o que eu fazia, se estava bem, o que aspirava. falou sem entusiasmo da vida profissional, fato corriqueiro, sem planos de voltar. parece afinal que a vida obriga à definição de um algo um local ali pelos vinte e muitos anos, e depois serão só gorduras a chegar e trilha-se algum caminho escolhido.

    a arrogância e a liberdade teriam se esvaído, ou vistas em rumo de extinção. a partir de um certo momento deixaram de ser opção para ser regra: seus pêlos vão cair e a sua vida aos poucos vai se extingüir. (mais…)

  • 2022 (profanado)

    marte entrou em gêmeos
    no dia do meu aniversário

    minha lua, meio do céu, kiron
    teu ascendente

    agora mercúrio, almuten figuris
    no meu mapa,

    retrograda
    do teu mercúrio ao meu

    que dirão estas vozes
    ou este silêncio

    da libra ao virgo
    da beleza à especificidade

    da balança ao detalhe

    irritado, diz alice
    eu reconheço

    há certo gozo do intelecto
    convite para uma fala dançante

    gorjeio gracioso
    verborrágico

    e quando isso acontece
    é bom sinal

    instiga, reverbera

    a vênus, aliás
    também virgo

    é porque as vênus e es mercúrios

    andam juntes
    nos nossos mapas

    em diferentes casas

    e ainda mercúrio
    volta a ficar direto

    no dia do teu
    aniversário

    mesmo dia das eleições
    aquele dia

    que é lembrado
    desde o reveillon

    vibrando
    uma virada

    que nos faça pulsar
    vida

    e já sei, sabemos
    como tantos indícios trazem

    uma conciliação
    algo de novo

    não sei se de libra
    ou de marte

    se urano
    ou a lua

    acho que sim,
    sagitário

    como estava
    no dia de sem palavras

    quando cedo vitória disse,
    no teatro,

    algo sobre o amor
    bem bonito, perco os detalhes

    mas lembro
    e falo

    do dedo no cu
    as pernas abertas

    a bota

    tomar no cu
    você precisa

    eu disse em verbo profanado

    é real
    sentir na pele

    deixar entrar

    ;

    naquele dia
    da entrada de marte em gêmeos

    respirei do estômago revolto,
    de novo,

    meu dia, reencontro
    sabe lá o que seria

    um show, uma névoa
    uma cortina estilhaçada

    um campo aberto de ideias
    disse tudo ali

    precisava

    como pôr o corpo em riste
    de novo

    inventar outra maneira de
    estar perto

    sem esforço
    sem desalento

    reescrever o encontro

    somente estar inteiro

  • sei subir montanhas

    um boas vindas a toda energia pulsante. é engraçado que intensidades parecem passar como nuvens correndo pela janela do trem, deixando uma sensação de presença inexprimível em palavras. é que a inspiração espontânea passou, mas sei que ela está, sei que é de alguma forma constante e evanescente em sopro.

    desaprendi as formas de falar olhando pra trás. me soam como sutilezas, atitudes que não quero, e é só fechar os olhos e ir. não é tão simples dizer, mas tem algo de diferente no ar. não me sinto capaz de cair tão baixo quanto cairia seis meses atrás, um ano, 12 anos. sem datas precisas. era turbilhão, montanha, tragédias súbitas e rompantes, leite derramado, cadernos apagados e lágrimas de escorrer pelo chão. depois festinha, forte, súbitos. dor de intensidades.

    é um não pensar, mas é mais longe. uma espécie de sensação de ‘sei subir montanhas’ e as subo, medindo as horas sim, com esforço, pra não deixar passar. a descoberta da medida é conhecer o prazer de se orgulhar de si mesmo. não mais agruras, mas dimensões.

    aceitação das horas turvas. não tem melancolia, solidão. por quê? tem tanta coisa que eu quero fazer, tantas montanhas pra subir. are you experienced? i’m an expert. voilà.

  • emo sex

     

     

     

    quais capuzes usar numa noite de chuva?

    deletérios medos

    dúvidas capazes de

    salientar

    um desejo

    .

    o tesão se desloca

    pornografia não dá conta

    (quem tem tempo mais para atravessar

    um mar de imagens pífias

    até encontrar aquelas bonitas,

    dignas de imensidão?)

    hoje não

    .

    o erotismo das palavras

    que aparecem

    o erotismo

    dos filmes que não assisti

    dar-se ao prazer das imagens

    encontrando cantinhos

    que fazem arrepiar e sorrir

    ao mesmo tempo

    .

    nas últimas buscas

    digito: love

    digito: intimacy

    digito: laughing

    laughing sex,

    emo sex:

    meus favoritos

     

     

     

     

  •  

    domesticidade selvagem

    pernas

    fôlego

     
     

    talvez o desafio seja tecer uma continuidade

     

    (abrupto)

    (abrupto)