dirigir

eu respiro embaixo d’água
faço casulo comigo
desconheço onde habito
me faço em rasgo

rompante de primavera
a refazer articulações
quadradas, desmemoradas
creque, creque, fazem as pernas
o torso, o pescoço
tem caroços

tremoço, tremeliques
da sampaula envergada
as memórias tantas
passearam por aqui
nos sonhos vagos
da membrana

cápsula que não se conecta
flutua, enxerta
uma cidade um quarto um telhado
um cantinho no mato, bem afundado
escárnio do dono
negacionismo no quintal

as conexões enteladas
os olhos secos de luminosidades
eu sei que vocês sentem
também isso
reinventar
a vida o cotidiano os laços

mas a estrada
a estrada a estrada
compõe minha espinha dorsal
não o carregar tralhas infindável
da minha avó
a incompletude herdada como meta final

é um movimento em espiral
que torce a membrana
faz das costas um eixo
abre espaço
respira

a voz entalada
atochada e engolida depois de
se atrelar a uma circunstância
um velho sagaz um jovem professor
machocentrismo
não tem vez

o macho que se hospedou
e trouxe uma pamelaânderson
a fazer sexo de porta aberta
o outro macho na sala
a casa toda povoada de machos
saí

entreguei a casa
devolvi o dinheiro pro pai, um macho
que te ama, mas autonomia, meu bem
movimento, destino, caminho, método
quem pode escolher

as rodas na estrada
não verás por aqui
não poderás pilotar
dizer tua vez

quem governa é o rei
tarô me deu o imperador
patriarcado não tem vez
na minha voz entalada
patriarcado inventa
uma voz sem nome
e corre feliz
empossado
inglório

onde está (ii)

antes de seguir viagem
eu joguei todos meus mapas fora.

era uma coleção de mapas
analógica

uma pasta se fazia de abrigo
estático

de tantas cidades
movimentadas

e alguns vilarejos
em mapas caseiros rabiscados

(que eu amo)

mapas de papel
como aqueles

que se empunhamos na rua
no brasil

nos acusam “turista!”
e pensam que temos dinheiro

é mais barato que um celular
um mapa de papel

não depende de conexão, internet
nem energia elétrica

mas um mapa de papel
é um emissário de algum tempo que partiu.

eu guardava mapas
há uns 10 anos

de ljubljana, de mauá,
amsterdam, são paulo

são paulo nunca cabe inteira nos mapas
e nem tentam, eles existem pelos bairros

tão pequenos que não dá pra ler as ruas
não parecem ser feitos para uso

mapas de rodovias, eu guardei
remanescentes

de um desejo já caduco
de pilotar estradas

(a carteira de motorista, depois dos trinta,
à família que quis me perpetuar criança, até hoje)

não me lembro se tive de goiânia
tinha esgotado florianópolis

mas eu tive uma blusa da ilha do desterro
quando ainda não conhecia o seu nome

era pequena, e podia-se apontar um lugar
na barriga

eu não gostava
nunca gostei de brincadeiras de toque

intrometido
ainda que jocoso, piada

é um corpo
que devaneia sobre cidades

e sobretudo pensa em percorrê-las a pé
todos os dias

enquanto não cabem
maiores montanhas

e rodovias.

gosto de subir aos ares
ainda que isso custe combustíveis

mas eu fiz o feito tão pouco
que não integro estatística alguma.

uma esporádica prática
alimentada dia-a-dia

de estar entre os lugares
conhecer as conexões

os caminhos
o nada entre os pontos

a ligadura.
o eixo

que se espalha
pelos mapas.

longe do turismo,
as bordas

o encontro
descoberta.

onde está

quem iria dizer
que o invólucro iria se rasgar
espalhando pela rua
(mais uma vez)

parece que os rastros
foram todos coletados
(ao menos isso)
que sirvam a alguéns

as ruínas
e também os amados
objetos costuras rabiscos
revistas livros

colchão
esteira
estante
gavetas

tudo isso na rua
num alvoroço que fez quebrar
o filtro
de barro lindo posto na esquina

(penca que sobrava de 2017,
penúria, que vá em paz
essa retranca,
a ajuda que se faz rebuliço)

as famílias enviesadas
batendo cartão, cortadas
abraçadas esfiapadas afiadas
eu me desfaleço

e esvaneço
reinvento memórias
encontro outro nome

rito

chuva em imperatriz, nevoeiro em bagé
não estamos
não estamos lá

a cidade se soprepõe tanto
ao longo dos anos, das fases e das horas do dia
que estou sempre levantando escombros

escombros doem as costas caem
escapo, não sem alvoroço
estratégia é também ruído, ainda que

estou doente de ar
falta de atribuições fluidas
atribulações voluntárias

carinho que dá meia volta na rua
desaquece, procura
vastidão de medos e o que

faço a esta hora de novo em cima
do chão, em cima das pedras, sobre
o móvel da cama, quebrado

que hospedou as vozes e depois limpar
os corpos moventes os rastros
e encontros que desatinam

se rompem às metades, não comparecem
desembaraçam fios e estão sempre
a se embebedar

o rasgo das ruas, não compareço
e quando vou reluto, incansável
para que não sejam arrastados os pés

o coração, se ele existe
e não descamba a pingar
tanto, que tanto engole e se volta para dentro

lutas ferozes para não se fechar
não aquele luto de novo
insuportáveis meses tão recentes

dos quais ainda bordo costuras
e poucos sabem como
as negociações

as contas de abaixo de zero abandono
por falta de melhor jeito momentâneo
me julgam, vejo fugas

medos alheios enquanto estaríamos juntos
coletividades dissolutas diante dos piores danos
medos, intermitentes trampos, cooperações falidas

fôlego, e vida
descampo
desmemória vez

dançar furiosamente e como se
a ordem dos processos fosse feita de que
forma, canto, ordenação

uma por vez
os caminhos
não é uma abertura é um rompimento

que ensaio, engatinho
hesito até não poder mais
os modos os meios os dificílimos estragos

as construções
os prazos embalsamados em pequenos lances
medo, daquilo que poderia, se

estivesse à altura dos próprios desejos
isso, talvez, um tanto