• trajeto

    às vezes eu tenho a
    estranha vontade de
    dormir num ônibus
    não que seja confortável
    não que não haja ruído

    é o simples gesto de
    estar em movimento
    ir de um lugar ao outro
    como se com isso –
    transpondo cidades –
    algo pudesse
    transmutar

    constelação vista pela estrada
    ruído de máquinas, parada
    assunto de duas cadeiras à frente
    música
    não gosto, me vejo procurando caronas
    mas quando dizem que – vamos conversar
    agradeço meu direito de permanecer calada
    embarco num ônibus, adormeço entrecostada
    sonhando abruptamente com locais
    um pouco menos vagos

    situações menos gastas
    encontros calorosos e afáveis
    conforto de saudades
    duram dois dias, em média
    no restante temos que trabalhar
    e se algo foge à regra
    posto que situação: viagem
    passeio passeio gana
    perco-me sutilmente
    entre apreços
    e paragens

    o core pede: luta
    concentração faremos
    em que localidade
    em que zelo encontre pela estrada
    uma casa, a que custos
    de frequência e lentidão
    costumeiramente
    saudáveis

  • das muitas esquinas um rasgo; um arroubo um baile alegria

    nós fomos ricos nós fomos serelepes nós fomos turvos nós nos divertimos um bocado nós celebramos nós choramos mas tantas vezes e tantas horas sem saber um ensejo um caminho por onde ir um altiplano uma subida na esquina um cantinho aberto para ver o campo todo sorrindo a galera toda cantando um lugar ao menos sem partir o terreno o suor correndo a memória o desejo tanto sofrendo o amor eu amo derrete

    mijar ali atrás meu encanto vem ser feliz de novo eu disse ela disse gritaram era louco gritaram não dá mais gritaram sem condição alguém lembrou que podia ser diferente e a gente abriu abriu ao largo na história fizeram rodinha fizeram dançar até o chão fizemos abraços múltiplos não é um sonho é construção meu amigo não romantize não tô romantizando tô vivendo amor

    é partilha
    é múltiplo
    é uma torrente de danos que depois de tanta luta meu caro é isso agora não é perfeito é o que há é caminho é luta é disputa é jogo é jogo meu bem não se incendeie mais

    eu incendiei a praça vinte vezes vocês viram?

    eu compus manchas coloridas no chão eram azuis

    pisotearam mil vezes apagou

    o rastro ainda está ali

    na rua naquele beco onde sonhamos era beijo era sonho não

    na beira

    num lapso de segundo

    num cansaço extremo alegria nem sei

    nem por um instante duvido

    do saber

    deste mundo

    é vivo

    é corpo

    é junto

  •  

    domesticidade selvagem

    pernas

    fôlego

     
     

    talvez o desafio seja tecer uma continuidade

     

    (abrupto)

    (abrupto)

  • fluxo

    onde está uma ventania que se situa exatamente no instante em que a dança começa, uma membrana é posta de lado; cartilagens de baleia formam costelas duras e maleáveis – uma fortaleza que tem meios e barbatanas; pés que correm por entre teias costuradas e que sim! cessam, se fazem percurso no chão; olhos que entre uma atenção e outra formam tecidos inversos, só se sabem em ação; imagens turvas que se formam cada vez mais em campo de letra, sobrepostas, miudinhas e contadas aos baldes para crianças; enxurrada, eu não sei, às vezes durmo; se considero cachoeiras como um aprendizado tão importante quanto bibliotecas; sob esse vínculo, a permacultura se realiza quando os pés se põem a caminhar; a casa então se move e deve aprender a existir desse modo.

  • assunto

    i change my mind while i speak. sussurro na sua orelha, em pé na rua, laçados. quase-performance no meio da praça largo do machado, em frente ao metrô. é amor, i say, é tesão, você pensa. quadrados conformes, acordos esquisitos mas memoráveis; no que nos diz respeito é tudo memorável. aqui, não ali. minha memória é o mundo, está no mundo, internet, tudo isso. deleto para mais não ver, a web é pura visibilidade, vigilância. penso que eu seria mais calma se me concentrasse nos livros e não nas telas de computador.

    memória plena, vontade. uma tarde inteira, uma vida inteira, eu faria. faria mesmo? sei de vontades, sei de memórias inventadas, constelações, vícios e abraços. intensidades eu tenho vontade de guardar todas para que se multipliquem, mas elas preferem o mundo.. talvez um dia tenha sucesso na coexistência entre mundo e o mundo, mundo e intensidades, mundo e desejos. fluxos que se percebem e não têm medo. alguma ordem no que não se nomeia, um a de aceleração. catálise.

    alheamento é para não confundir, para costurar desejos. embate em conversa, guerra de almofadas, guerra. conhecer em excesso é participar da vida? não se sabe; participar pelos outros implica em conhecimento. ou é uma definição. me especializo em “it’s complicated”, não em definições. ao menos existe o lado divertido da vida, esse que faz voar em pequenos bocados e carrega consigo um resto do todo. não completa, mas percebe e se põe em contágio continuamente. esponja. mundo-esponja é cada um que se abre.

    meu corpo é uma interface ou o conceito é mais amplo? mais estrito? devolvo a pergunta, reverberada. e com quê de mistura, química; é assim por agora. dissolução.

    ____

    alhear

    v.t. (1) tornar alheio; alienar, privar de. (2) fig. alucinar, desvairar, enlouquecer: alhear as mentes fracas. (3) v.pr. tornar-se alheio; evitar intencionalmente tomar conhecimento de algo. (4) arrebatar-se, extasiar-se.

  • departamento de outridades bélicas

    departamento de ambiguidades & perseverança

    departamento ali (sem resposta)

     

    rio de janeiro: suor
    rio de janeiro: esperar acabar o verão para viver (ñ consigo trabalhar)

    moleza sobriedade queria estar transando queria estar na cachoeira dançando mil grau mas escrever também me preenche me alegra, SÓ QUE — ñ dispomos de ar condicionado, senhor

    a arte a lembrança a viagem a torrente a floresta os términos, os fins

    dry martini eu gosto festa sim já foi mais simples já

  • cambridge analytica

    quem levanta os montes depois de mortos? quem ergue o eixo que faz respirar? quem derrama suas fezes sobre um povo, corrói seus novelos e ergue um punho

    sobre
    nós

    está ali às cegas
    tateando infinitos em praça pública
    mil sóis em utopias
    e amores

    esmagados,
    sem dó

    DIANTE DO ESCÂNDALO

    há os galhos
    que se embrenham uns
    aos outros
    e sobem
    encostas

    assuntos sinceros, recebidos em ouriço
    asperezas, recusas

    DIANTE DA ARMADILHA

    ergue o espírito em carne viva
    conta da história de seus avós
    seus pais, seus tios

    NÃO HÁ DE CALAR

    chorou
    no meio
    da praça

    caminhos ouvir carimbó

    no meio
    da praça

    DIANTE DO CAOS

    quisera mais vezes findar
    e recomeçar
    sem sentir perder os
    árbitros solfejos
    não encontra

    o nado alicerce que alhures ali almeja
    um navio
    um chão

    dança
    união

    em que país

    COMPÊNDIO DE IDEIAS E COISAÇÃO
    não rasgo

    hei
    de construir

    memória

  • o que é que quebra e sai
    correndo
    queria viver por dentro das coisas
    sem ter que almejar
    torrentes nada
    justiça pelego
    divulgação supremacia
    emprego, asfalto
    divulgação
    essa coisa vã que consome
    todos os poemas
    todos os dias da vida

    já quis morrer
    inúmeras vezes
    porque todos os dias
    têm de ser pagos
    e o dinheiro torna a minha cara muda
    a necessidade
    embebe em substituições
    aquilo de que seriam feitos os dias
    instituições, vontades
    não andam juntas
    pois brigam dia-a-dia
    o estudo o apreço
    a escrita envelheço
    sem publicar livro
    não
    publico
    divulgo
    e emudeço
    de novo

  • (-)

    é preciso abandonar um universo para ir de encontro às coisas. poderia descrever minuciosamente alguns acasos, ou atravessar em vendavais os maus transeuntes. são públicas, as memórias. estão em desgaste corrente as multidões, que no entanto ganham força. sobrepõem-se continuamente. multidão-livro. multidão-blusa. multidão-multidão e categoria nenhuma. tentativas de apreensão rotineiras são contrapostas a evidências históricas, nenhuma animadora no presente momento. as versões que se estabelecem ululam, reinvindicam o poder para si, e esfacelam craquelê na esquina mais próxima. é invisível, o poder protocolado é invisível a si próprio, nariz entupido em sangue. existem rastros e razões diversas, controversas, justapostas, em guerra. é tão cansativa a guerra que meus neurônios pedem ar – um ventinho leve de vez em quando, para proliferar vulcões na costa alheia a nossa, ainda que vá. sempre irá. a energia está fervente, é difícil resistir, ela vem abrupta e toma conta de tudo. o sol lá em cima quase sempre alto, quase sempre enorme, a lua enorme, a crosta terrestre enorme, e as conexões wifi segurando tudo em uns cabozinhos, parecendo inocentes. nunca o foram – tamanha ilusão. construída a coletividades tão vastas, atingindo os cantos mais fundos, tudo mediado. tudo em público. são públicas as memórias do povo. somos públicos mictórios. construímos em bases que bebem em papel marcado, obsolescência de mercados, viagens além-mar. ecoam em si próprias sobrevalentes, insurrentes, novas velhas vozes que nunca ouvimos porque mediados, agora juntos. juntos, mediados e em público. que vozes. que campos permeiam esses caminhos, coletividades vozes, continente.